Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Natal em família

Um futuro europeu sustentável

Conta o Leitor

2015-07-16 às 06h00

Escritor

Ramiro Costa

Aproximava-se a noite de Natal. Manuela estava na cozinha a preparar o jantar. Já tinha posto a água ao lume e aguardava que fervesse. Já tinha feito as rabanadas e um pouco de aletria, comprou um bolo-rei e pôs uma garrafa de champanhe no frigorífico. Não devia ser necessário, pois o marido não gostava daquele espumante e ela também não apreciava. As guloseimas da época eram só para provar, pois a idade já não permitia excessos. Se os filhos estivessem presentes, aí sim, eles deliciavam-se com aquele sabor fresco e gaseificado do espumante e provavam, com certeza, de tudo. E estava feliz. Feliz quanto se pode estar numa altura destas. Eram sete da tarde. Não tinha conseguido falar com a filha pelo skype, que estava em Londres, mas sabia que estava bem, pois já tinha falado com ela antes, ao telemóvel. Achou um pouco estranho não conseguir vê-la no skype, como habitualmente, onde costumava estar com um grupo de amigas e amigos, dos quais dois portugueses, que também tinham emigrado, devido à falta de empregos em Portugal. Coisas da época natalícia! Muita gente a falar, muitas mensagens, dificuldades na comunicação. Enfim, tudo pode acontecer neste dia! Falou com ela e pareceu-lhe feliz, como se estivesse em casa. Devia ser da companhia! Às dez da noite, entrava ao serviço. Devia comemorar o Natal com os doentes do hospital onde trabalhava. É enfermeira.
A água começou a ferver. Aproveitou para meter as couves e juntar-lhe umas gotinhas de azeite para cozerem mais depressa. E aguardou uns minutos. O filho já tinha telefonado de tarde, antes de ir para o trabalho. Desejou-lhe um Bom Natal e disse que gostaria muito de estar com os pais mas, devido ao emprego, não podia. Devia chegar lá para o final do ano. Mas não era a mesma coisa. Gostava mesmo era de estar com os filhos nesse dia, que tem um significado muito especial. Natal é família. Mesmo assim, estava feliz porque sabia que estava tudo bem com ele. Trabalhava, como rececionista, num hotel, em Amesterdão. E, nestes dias, alguém tem que trabalhar e, desta vez, tocou ao filho.
As couves já deviam estar bem cozidas. Meteu as batatas que já estavam descascadas, pôs um pouquinho de sal e enquanto aguardava o marido, o jantar devia ficar pronto.
Resolveu acender o lume. Colocou umas canhotas na lareira e com duas pinhas bem secas, o lume acendeu num instante. Começou a sentir o calor reconfortante e deu mais um jeito a uma canhota que teimava em fazer um pouco de fumo. Num instante, fez-se uma labareda e o fumo fugiu envergonhado pela chaminé acima.
Sentou-se, muito calada e pensativa, enquanto olhava para a lareira e ouvia o crepitar do lume. Não se podia ir abaixo, naquele dia. Afinal estava tudo bem com os filhos. Tinham saúde, e embora tivessem que trabalhar, eram jovens e conviviam melhor com estes dias do que os mais velhos. E como estava tudo bem com eles, tinha que estar feliz e dar graças a Deus por isso.
Aguardava o marido, que devia estar a chegar para comemorarem o Natal. Pôs o fogão no mínimo para as batatas não cozerem à pressão. Entretanto chegava o Zeca e jantavam os dois. Pôs outra panela ao lume para cozer o bacalhau. Bastava uma fervurinha e ficava pronto. Colocou água, ligou a outra boca do fogão e aguardou que ficasse quente. Entretanto, retirou a tampa da outra panela e sentiu um cheirinho a Natal. Pegou num garfo e deu uma volta às batatas para que ficassem mais aconchegadas. O cheirinho que saía da panela misturava-se com o aroma das iguarias que tinha preparado, mas que não deveriam ser necessárias, pois os filhos não estavam. Preparou a árvore de Natal, como fazia todos os anos: um pinheirinho pequeno, enfeitado com bolinhas, fitas prateadas e douradas, azevinho, uns anjinhos à mistura e, no cimo, uma estrela que podia iluminar a vida dos filhos que estavam longe. E, por baixo do pinheiro, o presépio, com o Menino Jesus deitado nas palhinhas, José, Maria, a vaca e o burrinho. Tal qual como nos outros anos em que os filhos estavam em casa e passavam o Natal juntos. Sabia que os filhos, agora, já não ligavam muita a estas coisas, mas mesmo assim primava pelas tradições natalícias.
Sentou-se numa cadeira da cozinha e começou a pensar: “Tanto trabalho, tanta preocupação, e de um momento para o outro, ficamos sozinhos! Os filhos vão à sua vida. Daqui a algum tempo arranjam um companheiro ou uma companheira e decidem viver juntos. Já não é como dantes que esperávamos que eles nos dessem a novidade que iam casar. E nessa altura, sentíamos uma alegria imensa. Agora partem para outro país, sabe-se lá como vivem, o que comem! Mas é melhor afastar estas ideias malucas.”
E lembrou-se do Natal dos seus tempos de infância. A casa cheia. Eram os pais, os irmãos e irmãs. Sete ao todo. De vez em quando, os avós. As histórias que contavam ao quentinho da lareira, as pinhas que punham ao lume para depois tirarem os pinhões e jogar ao rapa. E o Menino Jesus que vinha colocar as prendas nos sapatinhos que ficavam ao pé da lareira. Não queria adormecer, tal era a vontade de chegar a manhã do dia de Natal para ver as prendas. Mas acabava sempre por adormecer profundamente, e dormir como se dorme quando se é criança. Lembrava-se também duma história que o pai contava todos os anos. Era a história da cabacinha. Todos os anos, a mesma história. Mas nunca se cansava de a ouvir.
- Conta, conta, pai, a história da cabacinha - pedia todos os natais ao pai, quando era pequena.
Adorava a parte em que o lobo perguntava à cabacinha que vinha a rolar pela floresta.
- Ó cabacinha, não viste por aí uma velhinha?
- Não vi velha nem velhinha, nem velhinha nem velhão, rola rola cabacinha, rola rola cabação - respondia a cabacinha, sempre a rolar pela floresta abaixo.
Sabia a história de cor.
O telefone tocou e Manuela levantou-se para atender.
- Tou!
- Sou eu, o Zeca. É só para dizer que estou um bocadinho atrasado. O colega que me vem substituir teve um problema com o carro e vai chegar mais tarde. E eu não posso abandonar o local de trabalho, sem o meu colega chegar. Ah! Outra coisa, estou cheio de fome!
- Tá bem. Eu espero. Mas não demores.
Enquanto aguardava o marido, decidiu pôr a mesa e pensou. “Podemos comer na cozinha. Afinal, somos só dois e não merece a pena estar com trabalho e pôr a mesa na sala”. Hesitou, e de repente, decidiu exatamente o contrário. Decidiu pôr a mesa na sala, tal como nos outros anos em que os filhos comemoravam o Natal com os pais. E mais: decidiu pôr uma mesa para quatro. Custava-lhe muito passar, pela primeira vez, o Natal sem os filhos. Quatro pratos, quatro garfos, quatro colheres, quatro copos, quatro colheres para sobremesa e quatro guardanapos de pano, como antigamente, enfiados numa argola prateada. “Os meus filhos não estão cá este Natal, mas é como se estivessem”, pensou. Ficou muita satisfeita com a decisão.
O telefone voltou a tocar e Manuela atendeu.
- Tou!
- Sou eu. É só para dizer que o meu colega já chegou e eu estou a caminho.
- Está bem, está bem. Mas não demores. Se não, a comida arrefece.
E meteu, finalmente, o bacalhau na panela onde a água já estava a ferver. Dentro de dez minutos, o marido chegava e iam passar o primeiro Natal sem os filhos. E só então é que refletiu nas quantidades. A comida dava à vontade para quatro. Mas não havia problema porque o que sobrava dava para fazer uma boa roupa velha no dia seguinte. E que bem que sabia! Deu uma espreitada às panelas e voltou a sentir o cheirinho a Natal. Aproximou-se da janela e sentiu a brisa gelada deste tempo. Viu, ao longe, na estrada um grupo de jovens que conversavam e riam. Estavam contentes. Iam, com certeza, passar o Natal com a família. Voltou a pensar nos filhos, mas não havia nada a fazer. A vida é mesmo assim. Quando menos se espera, partem e vão às suas vidas. E já não passam o Natal com os pais.
O jantar estava quase pronto, a mesa estava posta para quatro, a lareira acesa, a casa começava a ficar quentinha. Estava quase tudo perfeito. Só faltavam os filhos.

Aproximou-se da lareira, remexeu o lume e o calor aumentou. A sala estava a ficar mesmo quente. Saborear o jantar tradicional da consoada num ambiente quentinho era ótimo. Se pudesse, ainda ia com o marido à missa do galo. Tudo dependia da disposição da altura.
Sentiu a chave a ranger na porta da entrada. Devia ser o marido. Aproximou-se e, de repente, a porta abriu-se e ficou surpreendida, perplexa mesmo e disse, com uma voz engasgada e repleta de felicidade:
- Meus filhos! Que bom!. Que alegria!
Nem reparou no marido e abraçou com toda a força os dois filhos que, neste dia, com a cumplicidade do marido, decidiram pregar-lhe uma partida. Mãe e filhos estavam felicíssimos. Foi a melhor partida que lhe puderam fazer.

Demorou algum tempo a recompor-se, e foi enxugando as lágrimas de alegria que lhe escorriam da face.

- Entrai, entrai. Hoje é o Natal mais feliz da minha vida!
E foram entrando para a cozinha e sentiram o cheirinho a Natal que partia da cozinha e se misturava com as iguarias da época que estavam na sala.
- Mãe, não estavas a contar connosco para o jantar, mas para nós serve qualquer coisa.
- Eu sei, filha. Eu sei.
E o calor que vinha da sala puxou-os para este aposento. Ao entrar, perguntou admirado, o filho:
- Mãe … mas como é que sabias que nós íamos chegar, hoje? Não me digas que o pai nos traiu e te disse!
- Porque dizes isso, meu filho?
E, antes que o filho respondesse, olhou para a mesa que estava posta para quatro pessoas, e percebeu a pergunta e respondeu:
- Coisas de mãe, meu filho! Nem eu sei!
Conversaram um pouco sobre a viagem, o trabalho, uma ou outra novidade. O tempo não estava para grandes conversas que o jantar estava à espera.

Pai e filho sentaram-se, enquanto a filha e a mãe iam levando para a mesa o jantar tradicional da noite de consoada.

Afinal, havia gente para as rabanadas, para a aletria, para o bolo-rei. Até o vinho espumante corria o risco de ser consumido.

E a comida dava à vontade para quatro: quatro pratos, quatro garfos, quatro colheres, quatro copos, quatro colheres para a sobremesa e quatro guardanapos de pano, como antigamente, enfiados numa argola prateada.

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