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Natal no Bom Jesus do Monte (século XIX) A Missa chamada de Gaita de Folle do Pe. Francisco Maria Pereira Lobo (séc. XIX)

A velha e a muda

Natal no Bom Jesus do Monte (século XIX) A Missa chamada de Gaita de Folle do Pe. Francisco Maria Pereira Lobo (séc. XIX)

Escreve quem sabe

2019-12-18 às 06h00

Elisa Lessa Elisa Lessa

A Missa da meia-noite no Natal chama-se Missa do Galo e é celebrada em Roma, desde o século V, na Basílica de Santa Maria Maior. Nela se assinala o nascimento de Cristo, na noite de 24 para 25 de Dezembro. Reza a lenda que o seu nome se deve ao facto de ter sido nessa noite a única vez que um galo cantou à meia-noite. Em Portugal, a celebração da Missa do Galo está associada aos autos populares de Natal e a celebrações dramatizadas na própria missa. Os pastores iam visitar o Menino Deus e entregar-lhe as suas oferendas, geralmente cordeirinhos que depositavam no Presépio e que eventualmente surgiam tocando a gaita de fole, um instrumento de festa e de alegria. Este instrumento, tal como a flauta, está associado à vida pastoril, e a sua presença era comum na vida religiosa e profana das populações nas aldeias e cidades. Em 1842, António Feliciano de Castilho descreveu as celebrações então realizadas em Lisboa: “ (…) A noite do gallo foi solemnisada em algumas igrejas, tanto nos repiques dos sinos como no orgam e instrumental com os mais edificantes pedaços transmitidos dos cantores dos Condes aos pianos, à gaita de foles, ao assubio das ruas, e à bandorra dos barbeiros. o boi e a mulla do presépio haviam de rir, se podessem, com este novo género de gloria in excelsis, e de venite, adoremos.(…)”1. A gaita de fole, representada como símbolo dos pastores, era invocada mesmo quando não era tocada, sendo substituída pelo órgão que durante a missa intervinha imitando a música pastoril da sanfona e da gaita de fole.

Na biblioteca D. Vieira de Matos, em Braga, existe um manuscrito encadernado intitulado Missa chamada de Gaita de Folle — para os dias da Natividade de N.S.J.C., Circuncisão e Epiphania Cantocham figurado da autoria do Pe. Francisco Maria Pereira Lobo, composta em 1878. Embora o documento não tenha a indicação do Bom Jesus do Monte, o papel usado na capa do manuscrito musical é semelhante a outros manuscritos provenientes do Santuário. A Missa do Pe. Francisco Pereira Lobo em cantochão com acompanhamento de órgão foi certamente cantada pelo Natal no Bom Jesus do Monte, onde os Ofícios Divinos eram realizados no Santuário com toda a solenidade tomando como modelo a catedral bracarense. O compositor foi cantor na Misericórdia de Braga em 1877 e provavelmente nos anos seguintes, o que nos leva a crer que esta Missa de Natal terá sido também cantada na Igreja da Misericórdia desta cidade.

1 Revista Universal Lisbonense. Tomo IV, n.º 15 de 29 de Dezembro de 1842, p. 187. Lisboa: Imprensa da Gazeta dos Tribunaes.
Nota

(.) No dia 25 de Janeiro, na Igreja do Mosteiro de Tibães, a Missa chamada de Gaita de folle será interpretada pelo Coro Vozes de Braga, com a participação especial do Grupo de Gaiteiros de Cardielos, no âmbito do Projecto Património Musical do Concelho de Braga.

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