Correio do Minho

Braga,

Natureza sou eu

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2013-08-04 às 06h00

Escritor

FLÁVIO OLIVEIRA

Gostava de se sentar, nas longas tardes de Verão, num dos frades meio estroncados, que ficavam à desbanda das portas fronhas do seu velho solar armoriado; dali, entretinha-se a ver o caseiro no terreiro, que ficava defronte, aprontando-se para as lides do dia-a-dia da quinta.
Sinto-me feliz e satisfeita porque vejo meus filhos crescerem cada dia prolongado, cada noite declarada, cada maré que renasce e em cada suspiro da minha alma.
Eu sou tu e tu és eu! Juntos somos um só… Quero fazer germinar meus frutos, minhas sementes, meus herdeiros, para dar continuidade a todos os ciclos e ecossistemas da Terra.
Não estou contente, mas neste mundo de indignados, de descrentes e de malfeitores, consigo ainda encontrar aqueles que me amam e que me refazem minhas delicadas vontades.
Deixa que eu te leve, no meu vento, ramagem celeste, vento do norte, e te conduza pelas verdades da vida. Deixa que eu seja uma simples preocupação na tua cabeça. Sou pura, sou celeste, sou Eu. Dizem coisas abstratas sobre mim, mas eu não as entendo, pois sou muito concreta e aliás Mãe.
Se eu fosse um simples pensamento vago, não existiriam estas palavras, estas folhas, esta pessoa que as escreveu, pois eu sou fonte da vida e Existo Mesmo.
Eu existo criando, engenhando, embelezando, encantando, dando aptidões às pessoas (…) Tudo nasce de mim, sou a fonte dos ciclos sucessivos da vida.
Por vezes esquecem-se de mim em locais melancólicos, escurecidos, talvez esquecidos, mas eu não me esqueci, pois mesmo nesses locais que pensam que eu não esteja lá, eu encontro-me em cada virar da esquina, em cada simples abrir de olhos, no barulho e no teto cinzento.
Mas há caminhos indiscretos, roteiros de filmes inabaláveis, hoje histórias tristes, labirintos onde caminhantes se perdem obscuramente e os confundem com felicidade. A felicidade está em mim, e eu estou em quem esteja apto para me receber.
Sai da tua casa, experimenta sorrir e conhecer-me melhor, não te prendas ao sofrimento, ao desgaste psicológico, à rotina, à violência, eles degradar-te-ão.
Deixa que eu te leve, com um simples cheiro a maresia, com um olhar terno de um animal, com o cantar do melro, com o trabalho árduo das populações que dependem de mim, deixa-me renascer.
Ambiciono que estejam mais atentos ao que se está a passar comigo porque eu não estou bem. Todos os segundos, recebo resíduos que contaminam as águas que correm nas minhas veias. Todos os dias recebo fumos que envenenam os meus pulmões. Todos os dias vejo perder seres que eu amo tanto e criei-os com tanto amor. Deixai-os viver. Não me peçam para me calar, meus olhos quase não se abrem, minha dor terrível, corroer-vos-á, pois sou o espelho da vossa vida, das vossas ações.
Lembrai-vos quando eu desaparecer, o vosso mundo e os ecossistemas do mundo inteiro sumirão.
Minhas gélidas paisagens frias, estão-se derretendo. Tudo será uma questão de momento, para eu poder demonstrar o meu verdadeiro poder. Recordai-vos, sou capaz de criar, mas também de destruir. Não me arrependo de o dizer.
A causa dos meus problemas por um lado estará no vosso meio cada vez mais industrializado, por outro lado numa sociedade de consumo (esbanjadora), mas o problema está em cada um de vocês, em cada ato que pretendeis fazer.
Não sou um ser, ou um objeto, ou muito menos um ser humano, sou um conjunto de seres e de forças que formam, o que vocês chamam de universo. Sou a origem das origens.
Há muitas pessoas que divagam sobre mim, dizem coisas que não correspondem com a realidade.
Para além de tudo, muitas vezes custa-me ver que muitos projetos “úteis” não sejam postos em prática, enquanto outros são apicados em prática e degradam o meu ser.
Gostas de respirar ar puro, deliras com a minha brisa do norte, amas ainda o cheiro verde do campo, encantas-te com o azul do céu. Quero que saibas e que sintas que o teu mundo depende de mim.
Mas eu dependo de ti, das tuas ações e dos teus atos.
Quero apelar-vos a uma melhor sensibilização em matéria do que se está a passar comigo.
No Mar, derrames de petróleo matam dezenas de espécies, pondo em causa muitos ecossistemas, comprometendo por vezes as cadeias alimentares. Mas também a qualidade das águas, as plantas, os pequenos organismos que fomentam vida.
Por outro lado, a pesca furtiva está a levar á extinção das minhas espécies e está fixando “comércios negros” e “lucrativos”.
As praias, paraísos inimagináveis, e refúgio de milhares de espécies, estão constantemente poluídas pelos lixos, sobras e matérias em decomposição.
Nos Continentes, as florestas, fonte de Oxigénio e de Biomassa estão sendo consumidas de uma forma irracional, seja pelos incêndios (de causa natural ou provocada), pelo abate intensivo e desequi- librado. Se nos mares há captura ilegal, nas florestas também há.
Os milhares de espaços verdes, estão sendo destruídos para a construção de infraestruturas. Compreendo a necessidade de uma sociedade consumista, mas há prioridades, há objetivos que deveis delinear.
Na Terra ainda há muitos problemas a destacar, como o consumo exorbitante das energias fosseis que comprometem as gerações vindouras, se falarmos das sociedades humanas que vivem numa crise de petróleo. Há de facto já, enormes potencialidades com outras energias, mas deveis ter em conta o desenvolvimento natural da vida e os processos que dela advém.
Os poluentes são outra das minhas preocupações. As principais causas deste problema baseiam-se essencialmente na utilização em demasia dos “CFCs”, bem como da elevada taxa de circulação de automóveis e como consequente a elevada produção de Dióxido de Carbono, que está afetando o buraco de Ozono, mas também aumentando o efeito de estufa. O efeito de estufa aumentando conduzirá a uma maior fixação de calor por parte dos gases, que aquecerão a atmosfera, aumentando desta forma a temperatura média da Terra, surgindo outros problemas de índole diversa.
Deixo aqui este texto para que todos se lembrem de mim, durante o tempo que lerem esta mensagem, para que vocês leitores, se consciencializem que pequenos atos podem fazer a diferença. “Um pequeno passo para ti é um grande passo para mim”.
Não te percas numa vida sem sentido, procura respeitar-me e eu respeitar-te-ei, desejo-vos a maior felicidade do mundo inteiro e não se esqueçam de mim - “Natureza”.

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