Correio do Minho

Braga,

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Nelinha

A Sueca

Conta o Leitor

2019-08-18 às 06h00

Escritor Escritor

Carlos Ribeiro

Quantos anos tens, Nelinha? Uma cara rechonchuda e sorridente vira-se para mim e, esticando-me quatro dedos em frente à cara, responde: - Quatro!
Eu abraço-a ternamente e escondo uma lágrima que teima em cair-me na cara. Todos os dias faço-lhe a mesma pergunta e, todos os dias, obtenho a mesma resposta. Quatro... a Nelinha é uma senhora com 54 anos de idade e está internada num lar, onde trabalho como enfermeira. Parou no tempo há cinquenta anos atrás e os pobres e tristes pais não encontraram melhor solução para a filha que amavam incondicionalmente.
Volto para casa no fim do meu turno, embrenhada nos meus pensamentos: a Nelinha, para sempre uma criança que não cresceu; a D. Conceição, uma velhinha que vem passar os dias ao lar com três pares calças vestidas umas por cima das outras, a fim de mitigar o cheiro das fezes e da urina que lhe caem pelas pernas abaixo; o Sr Carlos, um velhote com um físico de jogador de futebol americano que se esqueceu de quantos filhos tem… enfim, tantos outros, todos os dias. Já perdi a conta de quantos idosos morreram nos meus braços, na meia dúzia de anos em que sou enfermeira, no entanto, o que eu nunca irei esquecer, são os sorrisos deles, os segredos que me confiaram, de um filho que fez uma asneirada qualquer, de uma nora que era uma besta para o neto, de um cigarro fumado às escondidas no pátio do hospital ou do lar, do dinheiro (inexistente) que um genro lhe roubou...e tantas outras! Chego a casa e abraço o meu companheiro, o meu amigo de todos os dias e, nesse abraço, encontro a coragem e a razão para voltar no dia seguinte.
A vida é uma dádiva maravilhosa! Algo que nos foi dado e que, tantas vezes, não sabemos aproveitar e/ou perceber. Achamos que é algo a que temos direito sem fazermos nada para isso! Errado! Quem tiver dúvidas que venha comigo passar um dia a ouvir as histórias dos meus velhinhos, que sinta a dor e a alegria nos seus sorrisos, que sinta os seus olhares de medo do dia seguinte, que sinta a vergonha que eles sentem de não serem capazes de levar uma colher de sopa à boca ou de se limparem sozinhos na sanita, que sinta a paz que eles sentem quando recebem a visita de um filho, às vezes, meses depois da última. Venham comigo e vão perceber tudo... Um poeta, um dia, escreveu que é na história dos nossos velhos que nós lemos o nosso futuro!
Não podia estar mais certo! Enquanto jovens e sãos, defendemos que é bom, muito bom, chegarmos a velhinhos e termos tido uma vida feliz e realizada, com filhos, netos e bisnetos, viagens e casamentos, festas e muito e bom sexo. Claro que isso é o que eu e os jovens da minha idade acreditam e ambicionam ter! Contudo, a verdade é um tudo ou nada diferente... quantos de nós temos a oportunidade de perguntar à Nelinha qual é a sua opinião? Outros, que vão tendo o contacto com a realidade ao longo da vida, acreditam que, se fosse possível escolher, preferiam desaparecer enquanto são donos das suas capacidades físicas e mentais, evitando assim o sofrimento dos descendentes e a perda da dignidade humana! Mas, qual é o momento certo para desistirmos de viver, de parar de lutar?
Não sabemos, nem nunca o saberemos! Felizmente! Na minha opinião, a dádiva que nos deram é algo que não temos o direito de questionar, mas sim agradecer todos os dias o facto de estarmos vivos e a obrigação de tentarmos ser felizes e, principalmente, fazermos os outros felizes. Talvez pela minha profissão ou não, eu já não tenho dúvidas de que nunca conseguiria ser feliz, se não sentir que, todos os dias, tento fazer felizes os meus velhinhos. Com um jogo de cartas, (que nunca consigo ganhar), com um cigarro fumado às escondidas, com o conluio de lhes tirar uma peça de fruta do bolso que surripiaram sem os humilhar, com mostrar boa disposição em ver o mesmo filme trezentas vezes, ou ser adepta do Benfica, Porto ou Sporting. Sou de todos, felizmente...
Sem querer entrar em jogos políticos, seria tão bom se os nossos jovens de hoje sentissem que, um dia, também vão ser velhinhos, que vão ser "atirados" para um lar, que vão ser esquecidos pelas famílias que tanto amaram em tempos, que não se vão lembrar de quanto dinheiro ganharam durante a vida, de quantas casas e carros têm... no fundo, seria bom que aproveitassem a vida o melhor possível, sem nunca descurar o amanhã. Nascemos, vivemos e morremos... Porém todos, todos nós, em qualquer idade ou condição de vida, temos direito à dignidade!
Estaciono o meu carro junto ao lar no dia seguinte, entro e deparo-me com a minha "menina", a Nelinha, já com os quatro dedos espetados e com o maior sorriso do mundo. Pergunto-lhe:
- Quantos anos tens, Nelinha?

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