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No futuro seremos “espempos”?

Beco sem saída

Ideias

2017-02-17 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Quase toda a gente sabe já o que são os dispositivos RFID (lê-se “árfid”) - “Radio-Frequency IDentification” - sucessores dos conhecidos códigos de barras, mais não seja porque nalguma loja de um qualquer centro comercial se viu envolvido ou foi testemunha do embaraçoso acionar do estridente bip-bip-bip do alarme ao sair com um produto não desativado que comprou.

Menos pessoas sabem, todavia, que essa tecnologia tem vindo a desempenhar um papel fundamental na chamada “Internet das Coisas” e a contribuir decisivamente para a concretização de duas ideias tecnocientíficas com um alcance social e político muito grande: a de “computação ubíqua”, que foi originalmente proposta por Marc Weiser, cientista da Xerox, visando o crescente embutimento de computadores (sempre mais miniaturizados) em objetos que, desse modo, passam a operar de modo inconspícuo; e a de “informacionalização do mundo”, que seria o corolário lógico da primeira, entendida como ambiciosa meta da era pós-industrial, não somente de tornar todos os artefactos saídos dos seus sistemas de produção em híbridos, isto é, objetos com uma dimensão física inextricavelmente ligada a outra informacional (pense-se, e.g., nos livros que vão deixando de levar ostensivos códigos de barras e passando a ter dispositivos RFID muito finos colados internamente nas lombadas e, mais recentemente, colocados em pontos algures no próprio texto) mas também estender esse processo a não-artefactos, a coisas naturais e entidades vivas, associando-lhes camadas de informação, aumentando desse modo, num certo sentido, a realidade (e.g, QR-code junto a espécimes botânicos, em jardins, que podemos ativar com um smartphone e obter informação a seu respeito).

O que acabei de descrever encontra-se no domínio do (relativamente) familiar.
Mas personalidades como Bruce Sterling - escritor de ficção científica, teórico dos média - projetam visões do futuro em que, por efeito da disseminação dessas tecnologias, surgirá um novo tipo de objeto: o “spime” (space and time) - em português seria “espempo” (espaço e tempo) -, ou seja, localizável em qualquer lugar e a qualquer momento.
À primeira vista, objetos desse tipo poderão parecer uma boa solução para, por exemplo, desincentivar roubos. Porém, como terão dimensões reduzidíssimas, a ponto de ficarem encaixados, disfarçados, no que quer que seja, é legítimo afirmar que lhes inere um potencial para servirem fins biopolíticos de controlo totalitário, algo que nos deve suscitar profunda preocupação.

Com efeito, muito para além do seu propósito inicial, nos anos 1980, de uso na localização de objetos sumidos ou animais desaparecidos, temo-los, desde o início deste século, também em presos domiciliários (com as conhecidas pulseiras eletrónicas), em idosos (inseridos nas suas roupas, wearable technology, monitorizando os respetivos sinais vitais e permitindo encontrá-los no caso de se perderem) e, mais recentemente, em bebés, particularmente recém-nascidos (estão a celebrizar-se as meiazinhas e as fraldas inteligentes, isto é, com sensores que analisam, em contínuo, os níveis de oxigénio e a composição da sua urina, enviando os dados para uma app instalada nos tablets de pais e pediatras).

Enfim, a não muito longo prazo podemos conceber que não somente teremos de habituar-nos a uma nova ontologia, aquela em que os objetos, entendi-dos no seu sentido clássico, desapareceram, cedendo lugar aos ditos “espempos”, mas também a que nós próprios nos tenhamos tornado em entidades desse tipo.

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