Correio do Minho

Braga, sábado

No início era… o Rock! - Parte II

Jacques Delors

Conta o Leitor

2015-08-11 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

Seria nos princípios de ‘80 que uma casa de espetáculos em Lisboa marcaria decisivamente o rumo futuro da música feita em Portugal: o Rock Rendez-Vous, extinta sala da Rua da Beneficência. Ali realizaram-se concertos memoráveis. Por lá passaram nomes incontornáveis da música “indie” como os Echo & the Bunnymen, mais tarde catapultando para o sucesso bandas nacionais como a Sétima Legião e Xutos, onde realizaram atuações inolvidáveis. Mas, mais importante ainda, foi o aparecimento com o apoio da etiqueta independente “Dansa do Som” dos concursos de MMP do Rock Rendez-Vous, que deram a conhecer grupos como Croix Saint, Mler ife Dada, Essa Entente, Ocaso Épico, Pop Del’ Arte, Bastardos do Cardeal, Ena Pá 2000, Sitiados, RongWrong, Bramassaji, Ecos da Cave…
A verdade é que o RR-Vous foi o responsável pelo aparecimento de outras salas pelo país onde se reuniam bandas para mostrar a sua música.
Bem se pode dizer que a Música Moderna Portuguesa fervilhou nesses anos com uma sucessão razoável de iniciativas descentralizadas - estendendo-se ao Porto, nos míticos bares da Ribeira, como o Luís Armastrondo ou Aniki Bobó, em Braga, com o concurso de Música Moderna da Fábrica e o despoletar de bandas como os Mão Morta e os já referidos RongWrong, em Coimbra, com os seus concursos denominados Mostra de Música Moderna.
Não podemos esquecer que para além destes fatores outros prevaleceram para que a M.M.P. continuasse a sua caminhada. O aparecimento de outras editoras, algumas com mentores ligados à música, como a já referida Dansa do Som, ligada ao Rock Rendez-Vous, Ama Romanta e o selo alternativo bracarense Facadas na Noite, que apostava nas saudosas K7’s e em grupos “underground”, projetos alternativos e radicais que não tinham circuito comercial. Tratou-se de uma fuga deliciosa para além do fanatismo comercial. As suas edições vinham excelentemente apresentadas, com a cassete original, dentro de embalagens vídeo, criadas em exclusivo pela editora e de booklets - pequenos livros com fotos, dados sobre os projetos ou sobre a própria edição. Mantinha contactos com países sobretudo da Europa que fazia com que houvesse um intercâmbio de valores musicais. Por lá passaram Jardim do Enforcado, L’EGO, Hospital Psiquiátrico, HIST…
Podemos referir meia dúzia de nomes que ocuparam lugares de destaque na arte musical do país como os Heróis do Mar de Rui Pregal da Cunha, que apesar de inicialmente controversos por a sua imagem exacerbar outros valores nacionalistas, a verdade é que à altura foram uma pedrada no charco com inquestionáveis êxitos como “Mãe”, “Amor”, “Paixão” ou “Saudade”, conseguindo a proeza de introduzir uma verdadeira essência cultural portuguesa, dentro de um estilo sonoro que se comparava à pop neorromântica inglesa à época. Depois temos Rui Veloso e a sua “Rapariguinha do Shopping” ou “Máquina Zero”, a voz única de Xana dos Rádio Macau, um projeto dos mais interessantes que apareceram até aos dias de hoje.
Com pronúncia do Norte, os simpáticos “Táxi” de João Grande, que um dia, em boa hora trocou as notas do Banco onde trabalhava para dar voz a um projeto popular que arrastava e ainda arrasta multidões ávidas de ouvir os inúmeros sucessos: Chiclete, Cairo, O Fio da Navalha, A queda de um Anjo (Rosete), etc. Primeiro grupo a conseguir um disco de ouro, exatamente com o LP “Cairo”. Trouxeram uma fórmula pop fácil, eficiente como uma pastilha elástica, que se mastiga e deita fora. Simples acaso ou coincidência, a verdade é que o tema de maior êxito tinha o nome de “Chiclete”.
Depois temos os UHF, de António Manuel Ribeiro. Estes são mesmo do início destas façanhas roqueiras com a “Rua do Carmo”, “Cavalos de Corrida” pertença de um período ainda anterior ao “boom” do rock português em 1980. Uma voz com poesia à flor da pele; foram caso único de persistência, alheios a modas e sempre fieis ao rock e à força das palavras que lhe davam energia. Entre o estilo da pop independente, o lirismo poético e as referências à música céltica, a Sétima Legião construíram pausada e ponderadamente uma preciosa discografia, onde não faltam os sucessos radiofónicos “Sete Mares”, “Noutro lugar”, “Saudade” ou “Por Quem não Esqueci” ou “Porta do Sol”. Para lembrar sempre que a saudade aperta no sentido de que Saudade não é hoje estarmos longe, mas antes, de um dia ter-mos estado perto.
Finalmente, nesta viagem pela Ocidental Praia Lusitana, paragem obrigatória em Braga, a idólatra, em tempos considerada a verdadeira capital do rock alternativo pela qualidade e quantidade de projetos que habitavam esta cidade à sombra de Deus. Um autêntico viveiro de nomes que tão depressa saíam do anonimato para a ribalta das luzes dos palcos dos concertos noturnos, como porta-estandarte e como exemplo de Arte no Rock: Mão Morta. Aplaudidos pela crítica, idolatrados pelo público, são o maior fenómeno de culto da música bracarense e por arrasto, portuguesa, e para muita boa gente, a nível nacional, ombreando na popularidade com nomes como Xutos ou GNR, com uma diferença: os de Braga não se venderam ao profissionalismo, não deixando de trabalhar com o objetivo de marcarem uma posição que por mérito ainda hoje lhes pertence, optando pela qualidade independente, uma carreira sem cedências, onde os atropelos pela popularidade se sucedem.
“Oub’ lá”, “E se Depois”, “Sangue no Asfalto”, “Chavala”, “Istambul” ou o “Divino Marquês”, eternos temas da autoria da banda liderada por Adolfo (Macedo) Luxuria Canibal. E como se vê as palavras de Canibal não só ameaçam: mordem mesmo, e vociferam. Tudo é escuridão e terror. Encarnam a violência e o vazio urbano do final de século. De voz segura e mente inquieta, Adolfo desde cedo nos habituou aos seus ambientes de predileção, invariavelmente tingidos de negro e de vermelho-sangue. Narrativo e inspirado ao que se junta performance única em palco, o seu estilo tem encontrado numa sonoridade rock-perversa, e às vezes cavernosa, dos músicos que o acompanham. Adolfo esbofeteia preconceitos auditivos, destila ódio, fazendo de cada tema uma faca afiada e cada acorde uma punhalada dirigida ao âmago das pequenas coisas que fazem desta vida um inferno.
Criou-se uma consciencialização de que o rock feito em Braga podia evoluir para outros patamares. Sempre achei que a evolução deste fenómeno estava na abordagem a outras tipologias musicais e não no isolamento no mundo restrito do rock. O que criava limitações dentro da própria originalidade. No momento em que se desejavam as sinergias necessárias para colocar de vez a urbe dos arcebispos no topo, algo falhou. Hoje, à exceção dos Mão Morta e de um ou outro projeto que procura afirmação, o cenário apresenta-se algo árido de ideias. Quando compararmos nomes como os já referidos a que se junta BateauLavoir, Rua do Gin, Um Elétrico Chamado Desejo, Arquidiocese de Nojo, Baile de Baden-Baden, Auaufeiomau ou PVT Industrial como antecedentes dos Mão Morta ou Orfeu Rebelde é mesmo de aridez que se trata. Não que deixe de se fazer música, e da boa, nesta cidade, mas algo mais podia acontecer…
Década e meia já passou neste século XXI e não é que há por aí rapaziada a comemorarem 35, 40 anos de atividade musical? É o nosso Rock que vai “rolando” e ainda bem!

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