Correio do Minho

Braga, terça-feira

No início era… o Rock!

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2015-08-10 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

Parte I

Entrávamos nos anos oitenta ao som de Chico Fininho, Cavalos de Corrida ou Rua do Carmo, Chiclete, Dunas…
Apenas alguns temas que naquele tempo musical português se tornaram alternativa ao “nacional cançonetismo” como verdadeiros marcos par os anos do rock português. Os seus autores deixavam-se ser cúmplices de uma Nova Arte Lusa.
Nos próximos tempos iríamos assistir a um acumular de nomes que formaram o primeiro espaço do verdadeiro rock: Opinião Pública, Roquivários, Tantra, Beatnik, Arte & Oficio, UHF, Iodo, NZZN, os pioneiros de heavy metal em Portugal, Jáfumega, Aqui del Rock, Grupo de Baile, entre outros, eram nomes que os jovens, mas não só…, podiam contar para os concertos noturnos, que começavam a arrastar uma massa ansiosa por descobrir se aquele fenómeno seria efémero ou antes, tratava-se do embrião que surgira e que se transmitia pessoal e coletivamente com repercussões sobretudo a nível cultural e ideológico, proveniente da vivência de cada um ou a partir de influências que foram adquiridas, sobretudo do outro lado da Mancha ou do Atlântico. Um embrião que necessitava, obviamente de uma continuidade.
No rock português falava-se em “boom”: saíam discos, que rapidamente se tornavam êxitos comerciais mesmo que ainda não à escala desejada. Era necessário tempo. Havia uma data de concertos, muitas bandas em garagens a gravar também elas ávidas em conseguir o estrelato, o comprometimento político dos “anos da brasa” tinha ficado para trás. Agora desfloravam para a música portuguesa nomes como Salada de Frutas, Xutos & Pontapés, na região de Lisboa, ou Táxi, Jáfumega, GNR, Rui Veloso, no Porto ou então, depois de experiências mais ou menos bem conseguidas, em Braga onde Mão Morta era o expoente máximo de um estilo muito sui generis, na cidade dos arcebispos, que arrastavam outros nomes que mostravam qualidade muito acima da média; RongWrong, vencedores do II concurso de música moderna portuguesa, do Rock Rendez-Vous, sala embrionária de espetáculos e de novos nomes para o panorama nacional, Baile de Baden-Baden, Rua do Gin, Orfeu Rebelde….
Uns mais que outros criaram melodias que ainda hoje são entoadas em coro por jovens que talvez nem fossem nascidos quando essas bandas começaram a dar os seus primeiros passos.
Portugal na CEE dos GNR, Cairo dos Táxi ou Patchouly, do Grupo de Baile, são apenas exemplo da intemporalidade do rock em Portugal.
Apareceram os primeiros discos de prata e de ouro, as editoras mostram interesse nas canções cantadas na língua de Camões. Há um conjunto de sinergias que funcionaram como peças de um puzzle que foi concluído com êxito e que se repercutia no aparecimento em massa de novos projetos. Com a redescoberta de um novo estilo como alternativa à música ligeira ou “pré pimba”. A existência de programas de rádio (em Braga o programa “Sons da Pátria” chegou a ser diário com duas horas com honras musicais apenas de nível… nacional! Algo impensável nos dias que correm) e jornais e outras publicações mais especializadas, como Música&Som, Musicalíssimo, os jornais Se7e, LP ou o Blitz, este resistente até aos dias atuais em formato de revista mensal. O referido investimento das Editoras que perceberam estar perante um filão por explorar e um fenómeno de uma potencial indústria, o aperfeiçoamento das técnicas de marketing, um melhor poder de compra e a simplicidade e conhecimento da linguagem, direta e tendo como referências vivências quotidianas dos jovens, as suas lutas, necessidades, flagelos como desemprego ou a solidão, os primeiros amores, acabam por estar na génese do tal “boom” do rock “feito” em Portugal.
As consequências não se fizeram esperar: os jovens, no seu dia-a-dia, deixam momentaneamente de lado as músicas anglo saxónicas e passam a ter outras referências como “Chico Fininho”, “Chiclete”, “Sê um GNR”, “Bom Dia Lisboa” ou “Oub´lá”, “E se depois”. Num ápice o rock cresce exponencialmente.
Assim, realce para bandas como os Xutos & Pontapés, que em finais dos anos 70 início dos 80 apareceram com o seu primeiro trabalho discográfico em vinil. O single 45 rpm “Sémen/Quero Mais” e “Toca e Foge”/Papa Deixa Lá” e do LP “78-82”. Uma verdadeira pérola dos primórdios do rock nacional, através da etiqueta independente “Rotação”. A banda cedo desenvolveu um circuito de atuações ao vivo, que lhes permitiu granjear um considerável número de admiradores, uns largos anos antes de surgirem aos olhos do grande público - o que viria a acontecer, timidamente, com o álbum “Cerco”, editado em finais de 1985 e, em larga escala, com “Circo de Feras”, no início de 1987, bem como o respeito e admiração por parte da crítica especializada. Eram o punk à portuguesa. Nos concertos multiplicavam-se os lenços vermelhos atados na roupa de ganga ou de cabedal preta, o “X” aparece pela primeira vez em Braga, no concerto de aniversário do ABC, no Pavilhão Flávio Sá Leite onde os jovens bracarenses erguiam os braços em forma de “X”. Esta imagem vai perdurar para sempre e transformar-se no símbolo dos Xutos. Aos 16, 17 anos os concertos, as suas melodias e letras, o convívio com outras pessoas e as suas próprias situações de “farra” vividas como músicos, ajudaram, por estranho que possa parecer, à tomada de consciência social e, permitiram, sobretudo, compreender que a vida nessa idade não tinha obrigatoriamente que se limitar às sessões de cinema, aos passeios pelos Shoppings e, principalmente, à submissão a todos os valores dominantes. Mesmo dentro do sistema, havia espaço para ter posturas diferentes.
Mas nem só de punk viveu a música portuguesa nas três últimas décadas. No início dos anos 80, com o eclipse do chamado Rock Português (GNR, UHF a espaços, e Xutos - ainda praticamente desconhecidos - foram dos únicos sobreviventes), a designação Música Moderna Portuguesa, começou a ganhar popularidade, através de uma crescente utilização por parte dos meios de comunicação social mais ou menos especializados, mas também nas fanzines e enquanto designação de um certo número de iniciativas que viria a marcar a última metade da década, porquanto os anos seguintes seriam pouco relevantes não fosse o aparecimento de uma editora: a Fundação Atlântica, impulsionada por Miguel Esteves Cardoso e Pedro Aires Magalhães, que editaram alguns trabalhos discográficos de inquestionável mérito, como são exemplo o single “Remar Remar/Longa se torna a espera”, dos Xutos, “Foram Cardos foram Prosas” de Manuela Moura Guedes ou ainda os primeiros trabalhos da Sétima Legião: o LP “A um Deus Desconhecido” e o single “Glória”.

(continua)

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