Correio do Minho

Braga, quarta-feira

No país dos brandos costumes

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2018-09-10 às 06h00

Carlos Pires

Chegou Setembro, o meu mês preferido, porque é quando tudo verdadeiramente reinicia e se renova, já vai a meio. Todos nós regressamos ao trabalho. Os alunos também.
Há boas notícias do quadrante económico: a taxa de desemprego cifra-se no valor mais baixo desde 2002, 6,8% em Junho e em Julho, de acordo com a estimativa do Instituto Nacional de Estatística. O Algarve (Monchique) ardeu, mas não houve vítimas mortais, ao invés do que sucedera no ano transato. Tudo apontaria pois para uma pacífica e normal “rentrée”, com as politiquices costumeiras e as tropelias do mundo do futebol, neste país de gentes serenas e de brandos costumes.
Contudo, e para quem tem estado minimamente atento aos noticiários, certamente concordará comigo que uma onda de violência, com contornos especiais – porque focada em crianças, ou porque praticada no seio familiar, ou porque passional ou ainda porque com doses de premeditação e malvadez - tem afetado o país.

Senão, recordemos factos ocorridos e apenas nas últimas semanas:
- Um homem, de 53 anos, assassinou a mulher, com um tiro de caçadeira, em Quiaios, Figueira da Foz. Curiosamente, um despacho do Ministério Público, há menos de um ano, obrigara a PSP a devolver-lhe a arma de fogo com que viria a matar a sua mulher, uma vez que as espingarda tinha sido apreendida no passado porque ele tentara suicidar-se.
- Luís Miguel Grilo, atleta de triatlo, de 50 anos, que estava desaparecido, foi encontrado, morto, em Avis, a 134 quilómetros de casa, nu e com um saco na cabeça.
- Uma menina de sete anos foi rapta- da, violada e abandonada a mais de um quilómetro do local – o parque infantil da Amora, Seixal - onde fora vista pela última vez.
- No Montijo, uma mulher foi drogada, agredida com um martelo e carbonizada pela filha adotada e genro.

Não vou alongar mais a lista de ocorrências, porque na realidade, e infelizmente, há muitas mais. Este tipo de fenómeno - uma criminalidade violenta e grave – é efeito passageiro da “silly season” ou reflexo de algo mais grave e que poderá manter-se no futuro? E, a concluirmos que é algo que veio para ficar, pergunta-se: quais as suas causas? E o que fazer?
Ao longo dos últimos meses, Portugal tem sido sistematicamente considerando em várias avaliações internacionais como “um dos países mais seguro do mundo”, o que é fundamental para a qualidade de vida dos portugueses, mas também para o turismo e para o investimento no país.
A evolução na área do combate ao crime é pois decisiva para a qualidade de vida.

O homicídio tem origem na subcultura da violência. É pois, fundamentalmente, um problema cultural. Não tenho dúvidas que o replicar de crimes violentos, sem que se ponha cobro a esta escalada, potencia que os mesmos se repitam. Porque tal prática é assimilada pela sociedade como comum.
Por isso, e sem prejuízo do dever de aprofundarmos o exame das causas da criminalidade violenta, tema certamente complexo e inesgotável, é necessário priorizar o combate à mesma, o que exige a reunião das três atividades: prevenir, reprimir e controlar a criminalidade. Para tanto, polícias e tribunais têm um papel fundamental. É necessário contudo que o Estado lhes forneça os meios bastantes para que possam desenvolver esse seu trabalho. Antes que seja tarde de mais.

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