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No rescaldo das presidenciais

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No rescaldo das presidenciais

Ideias

2021-01-26 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Sem surpresas, Marcelo Rebelo de Sousa venceu as eleições presidenciais do passado domingo, embora sem conseguir aproximar-se dos números obtidos por Mário Soares em 1991. Ou seja, de nada serviu a Marcelo a “ajuda” que António Costa lhe ofereceu de bandeja, primeiro ao lançar/apoiar a sua candidatura, depois ao “confinar” o Partido Socialista, impedindo-o de apoiar um candidato das suas fileiras ou, no mínimo, da sua área política.
Engrosso o grupo, que creio ter um crescimento exponencial, daqueles que pensam que o secretário-geral do PS se vai arrepender desta manobra, deste jogo tacticista que colocou o partido como mero observador numa eleição de tamanha relevância quanto esta para a presidência da República. Mas essas serão contas de outro rosário que a seu tempo será desfiado.
Não tenhamos quaisquer dúvidas quanto a isso. A espera pode ser mais ou menos longa, mas é óbvio que mais tarde ou mais cedo a reorganização interna do PSD vai acontecer. E nessa altura, quando tal ocorrer, cá estaremos para ver os reflexos que a mesma terá na vida política nacional…
Mas voltando ao acto eleitoral para o mais alto magistrado da nação, convém lembrar que a desvalorização das eleições presidenciais por parte de António Costa serviu justamente os interesses do candidato Marcelo Rebelo de Sousa. E beneficiou porque, como Marcelo bem sabia e Costa não podia ignorar, se tornava óbvio que, com o maior partido português fora da contenda eleitoral, os militantes socialistas iriam dividir-se pelas candidaturas existentes, como de facto veio a acontecer.
Claro que a ausência de um concorrente forte, como seria um candidato apoiado pelo partido que neste momento recolhe o apoio de um largo conjunto de portugueses, como comprovam as sondagens mais recentes, poderia abrir o caminho a Marcelo para uma votação maciça, um sufrágio que ultrapassasse os números que Mário Soares obteve em 1991. Porém, contra as suas expectativas, esse resultado eleitoral acabou por não se confirmar. Venceu claramente, mas não cumpriu o sonho que perseguia…
Os resultados foram os que se viram. E na sua análise, não há que ter medo das palavras. A esquerda, no seu todo, teve uma pesada derrota. E os culpados, que sempre os há, embora por vezes não o assumam, têm rosto e nome. Neste caso, o principal é, obviamente, António Costa. Mas não é o único.
Os socialistas que tiveram a oportunidade de ouvir e ver, no domingo à noite, a intervenção televisiva de Carlos César a comentar os resultados eleitorais devem ter ficado chocados. E envergonhadíssimos de militarem num partido que tem tal personagem como presidente.
A declaração pública do presidente do PS, manifestando orgulho pelo resultado eleitoral obtido pelo antigo líder do PSD, ficará certamente para a história como um dos momentos mais tristes do partido. E será uma recordação pesarosa para os militantes porque foi uma intervenção que culminou e, de alguma forma, ainda tentou branquear, um processo eleitoral pessimamente conduzido no qual o PS não esteve à altura do momento, não esteve à altura do país.
A opção por desertar das presidenciais, a escolha de não querer um candidato da sua área política, foi péssima tendo em conta, nomeadamente, a relevância do partido no país. O facto de ser previsível o crescimento da extrema-direita, eventualidade que aconselharia um maior combate político no terreno, revelava-se também um importante factor a ter em conta. Mas o PS acabou por subestimar tudo isso e, assim, com a sua deserção do combate político, deu um contributo de peso para fragilizar a esquerda e para a sua estrondosa derrota.
Resta-nos agora a esperança de que o governo possa melhorar rapidamente as condições de vida de uma boa parte dos cerca de 12 por cento dos eleitores que, por estarem descontentes, foram engrossar, acredito que circunstancialmente, a base de apoio do candidato da extrema-direita. Creio que essa é uma tarefa urgente em que todos nos devemos empenhar activamente, cabendo naturalmente ao governo as maiores responsabilidades.
Todos sabemos, e quem desconhecia teve oportunidade de verificar na recente campanha eleitoral, quão diverso é o comportamento das massas agregadas quando comparado com a conduta individual de cada um. As desigualdades sociais e o fosso entre governados e governantes são ingredientes de um caldo que alimenta a frustração das populações. E é esse desencanto, essa desilusão, que sustenta uma extrema-direita racista e xenófoba, a qual, através de discursos inflamados de alegados “salvadores da pátria”, potencia o descontentamento e, frequentemente, agita o fantasma da desordem e da violência.
O aviso foi dado nas urnas. Claramente. Se não forem tomadas as medidas que a situação impõe, então os democratas vão ter um problema político muito sério a curto prazo. E, mais grave ainda, a eventual inércia dos governantes no sentido de corrigir as assimetrias que existem, designadamente no plano social, poderá conduzir o país a tempos de grande turbulência, que ninguém deseja.

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