Correio do Minho

Braga, sexta-feira

North King

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2017-07-20 às 06h00

Escritor

António J. C. da Cunha

O North King foi palco de uma das minhas histórias. Era um navio com biografia muito interessante (pesquisa internet). Foi montado na Alemanha. No inicio da Primeira Grande Guerra ficou escondido nos Estados Unidos da América. Com a entrada dos Estados Unidos na guerra contra os alemães, o North King foi tomado pelos americanos e logo afundado pela própria tripulação. Foi recuperado, reparado e convertido em navio militar de transportes. Com o fim da guerra foi negociado com companhias de navegação e terminou em Sociedade Luso Panamenha como embarcação de carga. Foi esse navio que me trouxe para o Brasil no final de 1954, entrando no cais do porto do Rio de Janeiro no dia 13 ou 15 do mês de janeiro de 1955.

Poderia começar escrevendo: era uma vez um adolescente, nascido em uma aldeia da região de Braga/Portugal, na Freguesia de Geraz, onde, ainda não havia energia elétrica, não conhecendo, por conseguinte, seus benefícios com tudo que ela proporciona na vida moderna. Vale dizer que nem a luz elétrica existia. Esta ficava por conta do uso de velas, de candeias ou lampiões. Vim conhecer o poder da energia elétrica, no Rio de Janeiro, com idade de 14 anos, passando antes por experiências como esta que irei contar, tendo o Navio North King como palco.

Com os meus 12 ou 13 anos, foi-me apresentada uma velha lanterna, mais conhecida como “FOX”, nome vindo da sua marca (inglesa, diziam). Não sabia tão pouco o que eram pilhas ! Com esta velha lanterna e uma pilha usada achada nos entulhos da construção vizinha de uma represa para uma hidroelétrica no Rio Cávado, abriu-se a curiosidade para os segredos desta força mágica. Vez por outra minha mãe permitia minha ida para lá recolher fios condutores nos escombros depois de usados na explosão de dinamites que abriam espaço por debaixo da terra por onde passariam as águas desviadas, nas profundezas, depois de movimentar as usinas geradoras. Junto com esses fios era também possível reunir pequenas baterias com as quais fazia minhas experiências.

Experiências que me permitiram iluminar alguns cômodos da minha residência (quartos, sala e cozinha). Coisas de criança que os adultos aplaudiam neles incluídos minha mãe, minha avó, minhas tias e alguns primos.
Antes de contar a minha experiência de “cientista maluco” em alto mar, abro um parêntese para dizer que cada português ou luso-descendente, em qualquer lugar do mundo, em qualquer país, carrega certamente o amor por duas pátrias.

Crescemos como crianças especiais enriquecidas pelo imaginário de duas culturas, muitas vezes diferentes. Lembro-me, quando criança das noites dormidas à luz de candeias ou lamparinas de querosene, assustado com as histórias que meus pais e amigos, nos contavam, normalmente à noite. Eram comentadas as invasões de lobos vindos dos montes vizinhos, Sto. Tirso e Serra do Carvalho do complexo do Gerez, bruxas e bruxedos ou lobisomens. A presença de comunidades ciganas de passagem pela aldeia era também explorada nas histórias que causavam arrepios.

As atividades dos campos com as cegadas do centeio ou a colheita do milho e do feijão, das medas de palhas, tomar banhos de rio ou ribeiros, caçar passarinhos. Do trabalho árduo de meus vizinhos, de sol-a-sol. Nosso mundo imaginário, enquanto brincávamos de fazer bichos ou monstros  nas sombras na parede, era povoado de histórias de neve, montanhas, adegas e vinho, que encontravam reforço ao saborearmos as comidas com as quais fomos criados.

Nas casas das tias, reforçava a importância ou uso de determinado prato, mesmo que para nós, crianças, ficasse muito distante a relação de determinada comida com certa estação do ano. Comia-se o que terra nos propiciava. Melhorada com um pouco do que se podia comprar na feira da freguesia vizinha. Saudades das Tias: Maria, da Mata; da Tia Rosa, da Igreja; da Tia Silvina, de Real (Monsul)

O que um luso-descendente anseia secretamente é “reencontrar” a pátria de nossos pais, sorver a emoção das histórias mágicas de nossa infância e fazer uma conexão com a genealogia “separada”.
Mas vamos à história que me propôs contar. Ao descobrir a foto do North King, voltei no tempo para lembrar-me de minha viagem e do segredo nunca contado. Trazia comigo alguns fios e outros apetrechos, usados nas minhas expediências de menino prodígio ao conseguir produzir iluminação que não fosse a querosene.

Em navio que não era de primeira classe, acolheram-me em dormitório, destinando-me um beliche, Coube-me usar a cama superior bem próxima ao teto onde existia o ponto de luz sem lâmpada. Era tudo que eu queria para por em prática, pela primeira vez, uma experiência com energia elétrica. E contemplando aqueles terminais, não deixei para depois. A viagem transcorria em alto mar, depois de termos passado pelo Porto de Funchal/Ilha da Madeira e Cabo Verde.

Entre a Madeira e Cabo Verde, na costa africana, enfrentamos grande tempestade colocando o navio em risco. Era uma embarcação comprida e estreita e as fortes ondas cruzavam o convés. Vencida a tormenta o North King deixou o Porto de Mindelo, em Cabo Verde. E depois de alguns dias de viagem com destino ao Rio de Janeiro, em tarde serena, após o almoço, recolhi-me ao dormitório para colocar em prática em minha aventura. Escolhidos os melhores fios e uma pequena lâmpada, sem me preocupar com a voltagem, pois disso eu não entendia, os condutores foram ligados à fonte, terminal.

E veio o BUM sobre o beliche. Após o um grande estouro, a escuridão tomou conta do dormitório facilitando esconder-me debaixo do lençol até que a tripulação encarregada da manutenção restabelecesse a normalidade. Certamente que, com o curto circuito provocado, algum fusível de segurança, foi queimado.
Já se passaram mais de 60 anos ! Acredito que estejam ainda procurando as razões do curto circuito que provocou a acidente. Escondido o material recolhi-me à obscuridade e vim para novas experiências no Rio de Janeiro. Contando com a colaboração de amigos, companheiros de trabalho na oficina gráfica em que fui trabalhar como aprendiz, fiz de tudo em me deram oportunidades, inclusive como eletricista. Muitas máquinas foram reparadas e pequenas instalações concluídas, contando, sempre, com a cobertura e a supervisão do chefe geral, o inesquecível alemão, Sr. Augusto Hofman, que sempre me chamou de senhor Antonho. Que Deus o tenha em bom lugar juntamente com tantos profissionais que me ajudaram a crescer.

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