Correio do Minho

Braga, sábado

Nos anos 70, soltaram-se os ‘fantasmas’ do sótão

Mercado de Trabalho em Portugal, uma visão crítica

Conta o Leitor

2014-07-28 às 06h00

Escritor

Graça Santos

OSótão da Carlos Amarante, hoje um auditório, julgo, foi outrora um espaço de arrumos nas duas extremidades e, no centro, uma sala de aula gigante que albergava, em simultâneo, três turmas repletas de alunas do Curso de Formação Feminina com as respectivas seis professoras.
O espaço era dominado pelos bordados, as rendas, a costura… executados num ambiente calmo, rotineiro, sereno e ordeiro, adequado à época anterior à Revolução.

No panorama português tudo era marasmo e nós, os que vivíamos fora da Capital, de cultura tínhamos alguns grupos de teatro nas magras associações culturais permitidas ou a Televisão - controlada pelo Estado e sujeita a Censura, como todos sabemos.
Porém, para mim, menina comum às outras, excluindo os livros escolares, a televisão era um único foco de cultura de que dispunha. Bebíamos tudo: os programas infantis semanais, os filmes, as notícias, o Tv Rural e …, claro está, o Festival da Canção e a Eleição da Miss Portugal!

Ora, o sótão da Carlos Amarante, no espaço reservado às arrumações, também era uma arca repleta de cultura, de magia, de liberdade, de imaginação e criatividade. Penso que tínhamos lá aulas diárias de duas horas cada, mas não nos fartávamos! A busca do insólito, do desconhecido fazia-nos antecipar as aulas de Oficinas, perdíamos quase sempre o intervalo anterior para correr para o sótão e “brincar” no espaço.

Abríamos as arcas cobertas de teias de aranha (hoje, com a fraca resistência ao pó, havia de ser engraçado!), vestíamos os vestidos, enfeitávamo-nos com os bordados e as rendas, admirávamos os quadros bordados a meio ponto, a ponto de cruz, e tantas outras relíquias artísticas arquivadas.

Também observávamos a vida cá fora através dos vidros redondos lá do alto - que lembravam um navio em alto mar… e víamos os rapazes sem sermos vistas (fruto apetecido porque não havia turmas mistas, ainda),… Éramos, por breves minutos, as princesas e rainhas dos contos de fadas nos castelos encantados… Mas, mal soasse o toque da campainha, prontamente abandonávamos a fantasia e entravamos na sala da aula contígua ao espaço de arrumação para cumprirmos, serenamente, as nossas tarefas de artistas da linha e da agulha: havia exame, tínhamos de conhecer os bordados tradicionais, as cores, os tipos de linhas, as características fundamentais de cada um,… e costurar (o que me dava grande prazer), e fazer croché e tricotar…

Esta formação feminina era complementada com as disciplinas teóricas e práticas como cozinhar, tratar da casa e das roupas, na economia doméstica. Grande Curso, esse, sem dúvida que nos preparou para a vida no seu todo. Contudo, o sonho bailava na nossa adolescência e juventude e a televisão abria-nos a outra realidade - de princesas do sótão passamos a querer ser Misses de Portugal.

Foi então que um dia organizamos um simulacro de Concurso de Miss Sótão: cada uma de nós vestiu um vestido (… Ah! Já me esquecia que para o vestido nos servir, primeiro tivemos de violar o regulamento interno da escola porque retiramos a nossa bata de uso obrigatório, uma proeza inigualável!), enfeitamo-nos com as rendas, maquilhamo-nos com batom, as unhas já haviam sido pintadas no intervalo anterior, com um frasco de verniz comprado na drogaria Moreira de Castro, avulso e quotizado entre todas.

Para completar a indumentária, nas aulas de desenho preparamos os dísticos redondos com o número atribuído a cada uma, que pregamos junto à cintura com os alfinetes da costura. A multidisciplinaridade e trabalho de projecto, tão proclamados nas modas educativas posteriores, não precisaram de estar legislados para que nós, já e intuitivamente, os aplicarmos! Tudo estava preparado ao pormenor, sem falhas! De qualquer modo havia o medo de sermos castigadas por infringirmos a Ordem estabelecida. Não obstante, o sonho venceu o medo e continuamos… Ao toque da campainha hesitamos novamente. Tivemos medo de sair para a sala de aula, mas a mais ousada avançou segura e nós, as outras, seguimo-la como patinhos atrás da mãe.

Na sala gigante do sótão, emudeceu o parco ruído das duas turmas e meia e das seis professoras, já sentadas, prontas a iniciar as actividades. As caras das nossas professoras resumiam um misto de espanto, admiração, medo… seriam “fantasmas” a sair do sótão????!!!! Mas, após uma curta fracção de segundos, os seus rostos abriram-se e sorriram perante o desfile seguro que fazíamos, copiado das misses da TV, já se sabe, e… aplaudiram… Aplaudiram todas, todas e só mulheres ali presentes. Esfusiantes de alegria, romperam connosco a rotina e bateram calorosas e infinitas palmas.

Atordoadas, sem saber muito bem o que fazer a seguir, ouvimos a voz da professora que nos aliviou dizendo:
- Muito bem, mas agora vão-se despir depressinha e venham lá trabalhar.
E ficou por ali o evento, não houve notícias nos jornais, nem filmes ou fotos para recordar, nem ditos que chegassem aos ouvidos do Director e pudessem comprometer alguém.
Mas nós, nós nunca mais fomos as mesmas. Criamos, organizamos, pensamos, executamos autonomamente, reconhecemos capacidades e liberdades que mais tarde seriam ferramentas importantes nas nossas vidas!

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