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Nós somos um Rio

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2018-02-20 às 06h00

João Marques João Marques

Agora, em verdade, somos dois, um em Braga e outro na sede nacional do PSD. O congresso laranja consagrou o novo líder do partido e uma aparente viragem no rumo da oposição. Os dois bons discursos que proferiu estabeleceram horizontes de esperança e limites de decência ao exercício das funções públicas que poderá vir a abraçar.
Olhou para o partido, refletiu sobre o país e perspetivou as reformas necessárias para que Portugal consiga afirmar-se no contexto internacional de forma perene e não meramente incidental. Não basta estar na moda, é preciso ter a capacidade de começar a ditar as tendências, pareceu querer afirmar. E esse é um propósito louvável, um reflexo da combatividade positiva que se espera de quem quer afirmar uma alternativa sólida e estruturada.

Por entre as linhas dos discursos adivinhou-se uma certeza quanto ao rumo, mas reconhece-se que faltou uma indicação expressa dos aspetos concretos que consubstanciarão esse trajeto. Contudo, não me parece honesto esperar que em dois discursos de apresentação se escrevinhe um programa político detalhado e exaustivo. Prefiro relevar a capacidade de expressar uma ambição desmesuradamente contida, sem limites de resultados, mas perfeitamente balizada nos meios admissíveis. O PSD não fará, como nunca o fez, tudo para ser poder, nem prometerá tudo a toda a gente para agradar a clientelas e garantir o ponto decimal que possa vir a faltar para a maioria de governo que quer conquistar. Ainda bem. A relação de confiança que se estabeleceu nos difíceis anos do programa de ajustamento assentou na comunicação franca das contrariedades, na aplicação das medidas imprescindíveis para assegurar um futuro digno aos portugueses e num propósito de verdade no estabelecimento das condições essenciais para reformar o país e tornar a west coast da Europa num destino competitivo no curto, médio e longo prazo.

Ao assinalar a vocação reformista do PSD e a sua identidade matricialmente social-democrata, Rio não se aparta da herança que recebe, antes se aproxima do histórico de Passos Coelho e da marca de água dos governos laranja, sempre ligada à transformação progressista de Portugal e à sua aproximação ao modelo civilizacional ocidental.
Nem tudo correu bem, é verdade. A composição das listas, que até se iniciou num ambiente de consenso, deixou um amargo de boca aos congressistas quando nelas viram incluídas figuras pouco gratas, sobretudo no topo da hierarquia do partido. Não fosse a mácula da indicação da antiga Bastonária da Ordem dos Advogados para Vice-Presidente da Comissão Política Nacional e Rio poderia ter começado a correr, sem barreiras internas, para o mar de vitórias que se espera que possa trazer. Assim não sendo, haverá que demonstrar que a unidade de propósitos supera largamente a desarmonia da equipa.

Finalmente há que destacar quem se destacou. Numa intervenção, um nome fez-se candidato, consolidou-se como alternativa e assegurou futuro. Luís Montenegro protagonizou a intervenção do congresso falando quando outros se calaram, divergindo quando outros apenas ameaçaram, clarificando quando outros se obnubilaram.
Poder-se-á contestar o tempo, mas como aceitar tal contestação se permanentemente, e bem, condenamos quem se reserva a uma mudez tacticista, aguardando na sombra e tudo fazendo na clandestinidade para que o seu momento se precipite. Ao encarar Rio nos olhos e dizer presente, ao assumir a discórdia de um plano de ação que lhe parece insuficientemente clarificado quanto ao papel do PSD na relação com este PS e ao abandonar o parlamento sem deixar o combate político, Montenegro fez o que muitos gostariam de ter a coragem para fazer. Sem rodagens de automóveis, sem astrologias ou zandingas, sem divisionismos territoriais ou classistas e na liberdade plena do despojamento parlamentar, conseguiu produzir uma intervenção à antiga, típica de um congresso do PSD, e que só não lhe causou uma espontânea (e indesejada) candidatura de última hora porque o modelo, agora, é o das diretas e o líder do partido já estava eleito.

Em suma, o PSD demonstrou unidade sem unanimismos, coerência sem imobilismos e horizontes futuros sem repúdios de heranças passadas. Foi um congresso a sério e à séria, para gente feita e não para meninos (ou meninas). Foi um congresso à medida das expectativas e com o ADN do partido indelevelmente estampado. O congresso mais português de Portugal no partido mais português de Portugal.
Uma palavra final (que só é final porque termina o texto) para Passos Coelho. Na ânsia de despachar o rosto da austeridade, a esquerda poderá ter criado o maior vulto político português do pós-25 de abril. Como vimos pela sua saída, e citando Mark Twain, os relatos da sua morte política foram manifestamente exagerados.

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