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Ideias

2015-06-22 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Os jornalistas vivem hoje sob permanente pressão. Pressão para ser rentável. Pressão para fazer a cobertura de determinado acontecimento. Pressão para ouvir este ou aquele interlocutor. Pressão para não afrontar os acionistas ou financiadores da sua empresa. Pressão para cumprir leis que não deixam margem para noticiar factos com relevância noticiosa. Pressão para trabalhar depressa. Pressão para ser o primeiro a anunciar a última coisa que acontece.

Pressão para multiplicar conteúdos em diversas plataformas. Pressão para atender àquilo que os cidadãos dizem nas redes sociais. Pressão para desenvolver conteúdos de qualidade que suscitem o interesse do público. Pressão para não provocar reações dos reguladores dos media. Não é fácil trabalhar assim. Por isso, atualmente, ser jornalista é aceitar exercer uma profissão que está sob ameaças de vária ordem. E isso deveria suscitar um amplo debate público.

Publiquei este mês um livro a que dei o título “Jornalista: profissão ameaçada” no qual contei com a colaboração de 100 jornalistas portugueses de diferentes órgãos de comunicação social. Juntando todos os contributos, conclui-se que os jornalistas não se sentem livres. Pelo contrário. E isso inevitavelmente interfere no seu trabalho.

O jornalismo livre, independente e de qualidade sempre foi vital para a construção de um espaço público dinâmico e para uma cidadania de alta intensidade. Esse jornalismo nunca constituirá um perigo para a democracia. Pelo contrário. Apresenta-se como um antídoto dos abusos de poder, da corrupção, das disfuncionalidades das instituições públicas, dos atropelos cometidos no sector privado, das tiranias individuais que aqui e ali vão fazendo o seu caminho. Felizmente esse jornalismo existe entre nós, o que nos devolve alguma esperança de que há um futuro para a profissão. No entanto, este é um campo cada vez mais minado e isso tem vindo a agravar-se. O que nos deveria deixar a todos, enquanto  cidadãos, muito preocupados..

A classe sente necessidade de falar disto, porque isto, os constrangimentos, é uma espécie de manada de elefantes numa loja de porcelana. Estão ali acomodados e o menor movimento poderá desencadear danos significativos. Por isso, a atitude tem sido deixá-los lá estar, porque a sua expulsão dá trabalho, causa prejuízo, provoca estragos. Mas seria bem proveitoso todos nós estarmos conscientes de que esses elefantes têm de sair das redações, porque a sua presença aí asfixia movimentos de quem quer trabalhar com outra desenvoltura.

 Aquilo que hoje mais atormenta os jornalistas são os constrangimentos económicos. Estão aí as principais censuras, transpostas na diminuição de meios, na redução das equipas, na limitação dos trabalhos. A dependência dos anunciantes é colossal. O medo dos administradores, real. Hoje é difícil ir até ao fim da rua ou até ao fim do mundo à procura de uma boa estória. Não há dinheiro. É preciso fazer mais com menos. E é preciso fazer. E no meio de tudo isto, ressalta ainda o pânico de perder o emprego.

Outro constrangimento apontado pelos jornalistas recai na pressão das fontes. O político que pressiona pessoalmente o jornalista pertence ao passado. Hoje os assessores e as agências de comunicação exercem essa influência no lugar dos vários poderes dominantes, desenvolvendo uma pressão de agendamento e de cobertura mediática com técnicas apuradíssimas, sendo, por vezes, muito difícil perceber onde pára uma profícua mediação e começa uma intolerável manipulação.
Claro que é preciso dizer que a renovação do jornalismo será sempre uma competência exclusiva dos jornalistas.

São eles que devem reformatar um campo que lhes pertence. São eles que se devem reinventar a si próprios. São eles que devem reinventar um futuro para o jornalismo. Para que a sociedade seja mais equilibrada, mais dinâmica, mais cumpridora.  Todavia, não podemos ocultar o facto de a profissão estar hoje ameaçada por diversos lados. Perante essas ameaças, temos a obrigação de agir, agitar o debate e colocar no espaço público essas linhas vermelhas que frequentemente são violadas. A minha esperança é que o livro “Jornalista: profissão ameaçada” possa constituir-se como um dos pontos de partida para essa discussão. 

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