Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Novos Desafios do Escutismo (I)

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Escreve quem sabe

2014-10-03 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

No artigo publicado no passado dia 4 de novembro de 2011, intitulado O Escutismo e os Novos Desafios do Século XXI, terminava afirmando: “a ação educativa deste “movimento de vida ao ar livre” necessita do enquadramento da Natureza que lhe dá vida e espaço de aprendizagem e crescimento para os jovens que, desde logo, aprendem a assumir responsabilidades na condução do seu processo de autoformação, a desenvolver a sua autonomia e a viver em harmonia com a Natureza e com a Sociedade, assumindo a sua quota parte na construção de um mundo melhor”.

Na altura, fiquei-me pela enumeração de dez desafios que, não constituindo uma lista em aberto, está sujeita a um processo de construção continuo.
Partindo das palavras do papa João Paulo II dirigidas às guias e aos caminheiros, em Piani de

Pezza (Itália), a 9 de Agosto de 1986: “Queridíssimos caminheiros e Guias: Sei que têm como patrono espiritual Paulo da Tarso, o Apóstolo dos Gentios, que, através da missão recebida de Jesus o caminho de Damasco, fez da sua vida uma incessante e incansável peregrinação para levar o Evangelho da salvação a todos os povos. (...) Imitai a sua aventura, levando no vosso coração o mesmo empenho, o mesmo zelo e o mesmo entusiasmo pela causa do Evangelho”, aliadas ao apelo constante do papa Francisco de centrarmos o nosso serviço aos outros, de um modo especial nas crianças e nos mais frágeis, vejamos como, neste início de século, dois dos novos desafios emergentes interpelam a capacidade renovadora do Escutismo.

1. As novas questões de género

O assumir um papel de igualdade nas lideranças sociais, profissionais e politicas por parte das mulheres é uma tendência que se tem vindo a materializar de forma progressiva, ainda que alguma discrepância, sobretudo nos sectores de altos cargos, seja ainda notória.
No CNE também esta questão se tem colocado. A adesão ao processo coeducativo operado na década de setenta, veio, de forma genérica resolver no aspecto das entradas de raparigas, contudo a assunção de responsabilidades, veja-se a ocupação de cargos na hierarquia, ainda é consagrada como a exceção, talvez ainda haja quem pense «na flor que enfeita a mesa».
O Fundador, Baden-Powell, alerta-nos para esta necessidade, é certo que com os argumentos típicos da época em que viveu, mas com a pertinência de um profeta (ou de um guru - como hoje se diz): “as raparigas são o que mais importa, porque quando mães da Nação são boas cidadãs e mulheres de carácter, hão-de procurar que os filhos não claudiquem nestes pontos”, in Auxiliar do Chefe-Escuta (p.7).

2. O espaço interclassista e transgeracional
A sociedade é formada por classes sociais (utilizaremos aqui o sentido lato deste conceito) que convivem simultaneamente no diverso espaço social, não responder a esta realidade é criar artificialismos ou guetos, é educar para a segregação. A riqueza do Movimento está na capacidade de juntar estes jovens, oriundos de diversos estratos sociais, num espaço e num projeto comum que todos vão construído, com vários percursos, para respeito da individualidade de cada um, mas esta será sempre considerada como um instrumento de conhecimento, compreensão, desenvolvimento e integração pessoal e social.
A longevidade das pessoas aliada à qualidade de vida que, também ela se prolonga, vem ampliar, ainda mais, o tempo disponível dos adultos para se dedicarem, por mais tempo, a ações de voluntariado. O movimento escutista tem que saber cativar esta nova realidade através do empenhamento direto enquanto dirigente (digamos como associado efetivo) ou do empenhamento parcial (associado auxiliar). Dever-se-ia equacionar neste enquadramento o papel da Fraternidade Nun’Álvares (os antigos escuteiros do CNE). Este espaço transgeracional é vital para uma aprendizagem global, contextualizada e socialmente enquadrada e ainda para uma aprendizagem polifacetada e de direção biunívoca, onde jovens e adultos aprendem uns com os outros.

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