Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Novos Desafios do Escutismo (II)

O que nos distingue

Escreve quem sabe

2014-10-31 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Dando continuidade ao artigo publicado no passado dia 3 de outubro de 2014, intitulado Novos Desafios do Escutismo (I), onde me detive, ainda que sumariamente, sobre a problemática das novas questões de género e do espaço interclassista e transgeracional, pelo que, hoje, procurarei enquadrar dois novos temas mantendo a ordem sequencial para que autor e leitor não percam as referências com o passar do tempo entre artigos.

3. As (in)tolerâncias pessoais, sociais e religiosas
O individualismo crescente, o consumismo asfixiante e o neoliberalismo galopante criam na sociedade perspetivas cada vez mais poderosas de competitividade que valorizam o ter, transformando-o no peso e na medida padrão.
É neste contexto que a intolerância, nas suas diversas facetas, invade a sociedade não adianta descrever-vos cada uma delas, basta ligarmos a televisão, olharmos para a comunicação social (jornais, revistas ou internet) ou simplesmente sair à rua, para termos todo um conjunto de dados impressionante que ultrapassa a sensação empírica de cada um de nós
B-P, na sua genialidade intuitiva e na sua capacidade de observação, falou-nos da educação como instrumento de construção da paz: “a paz não pode ser garantida unicamente por interesses comerciais, alianças militares, desarmamento geral ou tratados recíprocos, a menos que o espírito de paz esteja presente na mente e na vontade de todos os povos. Isto é uma questão de Educação”, in O rasto do Fundador (p.140).
É esta de dimensão de vivência quotidiana dos valores de paz e que a ela conduzem, como o conhecimento, a compreensão, a tolerância, a cooperação e a justiça, que o escutismo poderá evidenciar o «ser», como contraponto ao «ter» que nos é imposto.

4. O fenómeno da globalização
Para nós portugueses o conceito de globalização foi enunciado pelo génio de Camões que colocou na boca de Júpiter que profetizando os feitos dos portugueses anunciava a sua filha, a bela Vénus: “Os vossos, mores cousas atentando, / Novos mundos ao mundo irão mostrando.” (Canto II, estrofe 45), por isso, a globalização é um processo antigo, que transporta velhos problemas, dando-lhes uma dimensão sempre cada vez maior, uma visibilidade cada vez mais atuante e uma distância cada vez mais reduzida entre o tempo da ação e o tempo da apreensão - é o acontecimento em direto.
Ao criar o Escutismo como uma Fraternidade Universal, Baden-Powell prevê um instrumento de combate à hegemonização que tende a emergir de forma cada vez mais presente e opressora, ainda que sob as metáforas da segurança, do combate ao terrorismo e do policiamento do mundo. Devemos, por um lado, ter presente o ditado popular: “a violência atrai sempre violência” e por outro a visão de Camões complementada pela visão apresentada na primeira quadra de um dos seus mais célebres sonetos:
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
O écran do nosso computador, do nosso tablet ou do nosso smartphone, não se pode transformar, nem na nossa única janela, nem o nosso único caminho para o mundo e para as pessoas, pois corremos o risco de transformar-mos a nossa casa no gaiola, ainda que dourada, de que nos fala o poema de uma canção dos Pink Floyd:
“Wish you were here
Julgas então que sabes distinguir
entre o Céu e o Inferno,
Entre o azul dos céus e a dor,
Distinguir entre um prado verdejante
E uma viga de aço fria e nua?
Entre um sorriso e uma máscara?
És capaz de distinguir?
Convenceram-te a trocar
Os teus heróis por fantasmas,
Cinzas quentes por árvores?
O vento escaldante pela brisa fresca,
E o conforto pela mudança?
Aceitaste trocar
Uma marcha num dos lados, numa guerra,
Por um papel principal numa gaiola?”

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