Correio do Minho

Braga, terça-feira

Novos Desafios do Escutismo (IV)

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Escreve quem sabe

2014-12-12 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Dando continuidade aos artigos publicados nos idos meses de outubro e novembro, sob o título: Novos Desafios do Escutismo, onde me detive, ainda que sumariamente, sobre a problemática das novas questões de género, do espaço interclassista e transgeracional, das (in)tolerâncias pessoais, sociais e religiosas, do fenómeno da globalização, do sentimento ambientalista e de defesa do património natural e das práticas de cidadania e de autogovernação, pelo que, hoje, procurarei enquadrar dois novos temas mantendo a ordem sequencial para que autor e leitor não percam as referências com o passar do tempo entre artigos.

7. A atualização das suas propostas mantendo a dialética riqueza e simplicidade;
Nenhum de nós tem dúvidas que o mundo mudou imenso desde que o escutismo foi fundado em 1907, mais do que o mundo, foi a sociedade, as pessoas, a forma de estar e de sentir os valores. Assim, as instituições foram também mudando, ora adaptando-se às novas realidades, ora sendo o motor destas. Inevitavelmente com o escutismo aconteceu o mesmo. Nesta leitura dos sinais dos tempos, numa linha temporal de 107 anos, foram-se redesenhando novas propostas educativas, atentas às conjunturas das épocas e à missão essencial do escutismo de ajudar os jovens a tornarem-se cidadãos solidariamente ativos, à luz dos direitos universais e da fé professada por cada um deles.
É verdade que nestes “restauros”, por vezes o conjuntural terá ofuscado o essencial e vice-versa. Por isso, não podemos esquecer, nem a riqueza deste conceito de cidadania, nem as palavras de Baden-Powell: “O Escutismo não é uma ciência abstrusa ou difícil: é antes um jogo divertido, se o encararmos como deve ser. Ao mesmo tempo é educativo, e, como o perdão, tende a beneficiar tanto quem o concede como quem o recebe” e “a finalidade do Escutismo é perfeitamente simples”.
Ao definir o jogo como um instrumento de educação, o fundador está a alterar, não para o paradigma de sentido único que dominou a educação, isto é, a existência de quem ensina e quem educa, mas sim para o de sentido recíproco, onde discípulo e mestre aprendem um com o outro, sendo o valor desta educação equiparável ao do perdão.
Somos assim transportados para um conceito onde o jovem é o protagonista da sua educação: “a autoeducação, isto é, o que o jovem aprende por si próprio, é o que mais tarde irá acompanhá-lo e guiá-lo pela vida fora, muito mais do que qualquer outra coisa que lhe seja imposta por um professor por meio da instrução”.

8. A tendência galopante da escolarização;
A escolarização é um fenómeno que marca claramente o século vinte, desde logo porque se impôs sendo que os jovens estão cada vez mais escolarizados, de tal forma que o início da “idade adulta” também está abrangido por este conceito. Também é verdade que o conceito de escolarização envolvendo o conjunto de conhecimentos adquiridos na escola, tem evoluído, aproximando-se cada vez mais da “educação”, à medida que se vai afastando da “instrução”.
A escolarização, segundo a UNESCO, insere-se no tipo de educação formal - por oposição à educação informal e à educação não-formal -, por ser estruturada, hierárquica, faseada, das instituições primárias às terciárias - a formação dada nas escolas. Esta tipologia tende a hegemonizar, impondo-se como modelo e asfixiando as outras formas de educar. Segundo este modelo da UNESCO, o escutismo é um movimento educativo do tipo não-formal, por ser uma atividade educativa organizada fora do sistema formal estabelecido, visando servir um público identificado que aprende, com objetivos educativos identificados. Ora, para prevalecer fiel ao seu método e às suas origens, o escutismo não pode deixar-se descaraterizar por essa “bola de neve” que é a escolarização.
Para que tudo isto seja possível há que conhecer cada criança e cada jovem com quem se trabalha e repetir até à exaustam o desafio que Baden-Powell nos deixou “pergunta ao jovem?”, afirmando, desta forma: “O princípio segundo o qual o Escutismo funciona é o de que se estudam as ideias dos jovem, que é instigado a EDUCAR-SE A SI PRÓPRIO, em vez de ser instruído”, como nos recorda o fundador, valorizando assim a primazia da criança e do jovem no processo educativo, a pedagogia da participação e a assunção da responsabilidade individual e coletiva.

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