Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Num sussurro

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2016-08-04 às 06h00

Escritor

Rosa Pires

Há vozes em melodia a emoldurarem-na.
Elevam-se. E num sussurro agarram-na. Fecha os olhos e deixa que a levem. Só ela não sabe permanecer e viaja… E não há freios que a sustentem ali na tela imutável e incolor!
A floresta é espinhosa e dilacera quem nela tenta ou ousa entrar…
Contrapondo-se à ilusão que o desejo é vão, e os cânticos entontecem, a dor adormece e embriaga a emoção.
Mas mesmo que não o consiga nada a desviaria da sua opção!
E quando do vento dele se acaricia só na brisa, sem grandes rumores, para que nem nela se sinta obrigada à recordação, vai e deixar-se-ia ir todavia que a tolerância é a companhia, e sabe quem a acompanha deslizando fugidia.
Sentir pena é mentira e falta de vontade hipocrisia, pois a verdade só dói um dia?
E se nos outros, os passos desinteressados nela seriam dados em compasso e pela incerteza se guiaria mais por instinto do que pela certeza, pois ficar seria não saber ir e negar tudo o que poderia.
Que de uma vez as coisas são feitas, umas vezes por que tem de ser outras porque assim o terão e outras porque ninguém sabe sequer por que motivo terão de ser.
Ah! Os cânticos, em músicas lentas que a elevam como voo de aves no murmúrio das manhãs serenas, na miragem dos vulcões em erupção, que acalmaria seus desejos de lava por entre os sons amenos nos ramos das árvores que quase tombam a oscilar por entre os seus dedos ainda de menina abandonados em convulsão.
E as rosas, que o sol doira e delas exalam fragâncias inebriantes, como espelhos em cores que desmaiam e reflectem sombras como licores nas taças que se bebem de um trago embriagados até à última gota.
Se encontraria a porta de saída ou se outra à chegada se abriria ou se os olhares se desviariam ou se no corpo traria as feridas profundas…
O salto não hesitaria e o grito no peito se soltaria na placa sólida do abismo, na golfada do ar em plenitude oscilando como corda bamba, como sons grasnantes de violinos em queixume que as gaivotas intentam em imitar sobrevoando as cidades vindas do mar!
E por mais que o tente, nas conversas serpenteadas em surdina encontrar um fio condutor até desembaraçar a meada desalinhada, as vozes não a convencem, nem a trazem ao ponto de partida para aceitar a vontade que cada um lhe tenta impor como a única verdade e desta foge em bando, num sentido e noutro lá no alto como pássaros ao pressentirem a tempestade.
Todos lhe trazem o amargo do que já ela tentaria?
Nem é fel nem suco de abelha que se aproxima mais impaciente e intolerante dum sabor numa impressão que só ela tem.
Questionar-se, no enlaço da doçura, recostada no encosto da sua virginal teimosia sem a arma da gaveta apontada ao alvo num ponto do seu peito desassossegado que em braços abandonados lhe tentam agarrar a calmaria.
E a viagem continua!
Vertiginosa nas curvas. Contorcendo-se até a exaustão em direcção a qualquer coisa sem obstáculo ou barreira ou a impor-se a cada patamar, cada vez mais além por entre a calma que todos dizem que tem.
De todos os ângulos e brechas o seu corpo é um nó só. Um cordão ténue, num fio que se soltou do ventre da sua mãe e se refaz liquefeito em sangue no seu peito como o seu filho agora no seu ventre que palpita e reclama em vão vida própria, numa acrobacia que se torce e se endireita, numa dança que parece que dói nos passos e se eleva como as bailarinas, tão suaves que pela sua leveza esvoaçante de tecidos finos que parece que sobem e não descem e sem suspeita das calosidades que nos pés lhe deixam em ferida.
As cores misturam-se e reflectem-se como em telas que parecem vivas e a qualquer momento o mar as esventra, ou em reboliço, resvalam da montanha que desaba e a tudo abafa no silêncio que nem a morte aguenta e o murmúrio já o ruído o acalmou.
As coisas são como são para uns de qualquer maneira, para outros não são coisa nenhuma ou ainda nem sequer o são, ou nem sequer sabem porque assim são.
E quem por ali passa não percebe o que se passa ou passou.
É um reboliço de passos e vozes em uníssono ou gritos e ferros numa orquestra que fere e que a todos chama a atenção e uns reagem de forma que a ela não faz sentido como se estivesse a pairar de outro lado e o palco não fosse nem recatado ou em praça pública e num primeiro impacto há quem até desmaie ou quem se senta de olhar vago ou a quem o som fica preso na garganta tal é a emoção ou a desilusão ou sem acreditar no que se desenrola.
Mas enquanto nada é incerto e tudo ainda se adivinha…
E enquanto o sol brilha a noite tarda e a tarde ainda teima o sorriso ainda encanta e o tempo ainda não escasseia e todos os silêncios ainda gritam e projectam as sombras do desconhecido até formar fantasmas e medos ou leves complacências e o céu traz os azuis ou tons de laranja ou ainda um vermelho vivo que até a vela encandeia e os barcos velejam inocentes na superfície dos rios onde o doirado de pranto se banha e muda para prata.
Só ela Zahra virginal e pura de significado luminosa e brilhante não sabe permanecer e viaja entontecida na infinidade de sons indefinidos na quietude aleatória dos ruídos e das cores por entre a multidão que se alteia!

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