Correio do Minho

Braga, sábado

Nun’Álvares Pereira

Pavilhão do Atlântico distinguido com o MasterPrize em Los Angeles

Escreve quem sabe

2015-11-06 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é, que erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

`Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

Fernando Pessoa, In «Mensagem»

Os diversos calendários evocam hoje o dia do Condestável, que é o patrono do Corpo Nacional de Escutas e isso justifica uma interrupção na sequência que iniciámos sobre os valores da Lei do Escuta para olharmos um pouco para este homem que mereceu o respeito do sagaz cronista, Fernão Lopes, mas também a atenção de Fernando Pessoa que lhe dedica este poema, colocando-o simbolicamente na primeira parte da «Mensagem» dedicada ao Brasão, ou a forma como o presidente António José de Almeida identificava Nuno Álvares como «companheiro de Portugal», ou ainda como afirmava O Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente, na altura bispo do Porto, «Nuno Álvares é a cidadania em pessoa”, finalmente como já, desde sempre os escuteiros católicos cantavam o seu Patrono «Herói e Santo Nuno imortal, valei às Terras de Portugal».
Este honrado e leal guerreiro bem poderia ter sido evocado como modelo para ilustrar os valores evocados no último artigo: honra e lealdade, pois estas são duas qualidades que todos reconhecem tanto no jovem pajem, como no poderoso Condestável do reino ou ainda no humilde frei Nuno de Santa Maria.
Em todas as fases da sua vida, sobretudo na vida adulta, Nuno procurou despenhar o seu papel de forma exemplar, buscando, como diríamos hoje, a excelência, que o reconhecimento de ontem e de hoje confirma que assim era, mas não se limitava a procurar a perfeição nos atos, procurava que em todos estes o respeito e a justiça estivessem sempre presentes embebidos no amor aos outros.
É certo que, enquanto Condestável do reino, estudava minuciosamente, tanto o campo de batalha, como as forças em contenda, pois o objetivo era vencer a batalha, mas no final o comandante ordenava tratamento igual para todos os feridos e antes desta começar orava por todos os que viria a padecer e encomendava as suas almas ao Criador, sem nunca esquecer o pedido de ajuda a Maria.
Tal como o carmelita se preocupava com os pobres e os famintos que ajudava com a sua própria alimentação, tendo-se despojado das suas riquezas materiais para se dedicar, de corpo e alma aos outros e as coisas do Reino.
Esta opção radical de vida que toma, quando já não havia perigo para a soberania de Portugal, é desconcertante e só é compreensível pela capacidade de se dar à nova missão que escolhera para a sua vida.
O Homem que teve a humildade de dizer não ao apelo de sua mãe que, em nome do rei de Castela, lhe pedira para se mudar para o lado onde estavam os seus irmãos com esta frase que, à época, parecia não ter qualquer significado relevante, mas que hoje será um dos conceitos fundamentais da vivência democrática: «não posso trair esta terra que me viu nascer», também teve força para se privar de honrarias e riquezas para partilhar o pouco que o convento lhe dava para matar a fome e o frio aos marginalizados pela sociedade, como diria o papa Francisco.
Este apego de Nun’Álvares Pereira aos outros, principalmente aos mais débeis, mas também o amor à Pátria que foi incapaz de trair, por muito grande que tenha sido a tenção, faz dele um Homem do seu tempo, mas também do nosso tempo, com uma visão impressionantemente justa e solidária daquilo que deve ser o serviço público, social e humano de qualquer cidadão.

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