Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Nunca te esqueças de mim

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Conta o Leitor

2018-08-19 às 06h00

Escritor

Todos os dias, desde há muito tempo, que ele praticava aquele ritual de verificar a caixa de correio, em cada regresso a casa depois e mais uma jornada de trabalho.
Habituado a deitar ao lixo a maior parte do que lá encontrava entre publicidade e outra correspondência sem interesse, aquela sexta-feira trouxe-lhe algo de novo. Chamou-lhe a atenção o selo, diferente dos outros, que o levou a aproximar para verificar a sua origem. Suécia.
Um arrepio percorreu-lhe repentinamente todo o seu corpo como que adivinhando autor da carta. Ou melhor a sua autora, pois daquelas latitudes apenas podia ser uma pessoa que um dia já bem distante no tempo, fez parte da sua vida. Há cerca de dez anos que não recebia notícias dela.
Por isso deitou olhos ao remetente para confirmar as suas cogitações. Confirmava-se. A carta era dela, a mesma que com ele viveu os melhores dias da sua juventude e já boa parte da idade adulta e que só um diagnóstico que ditou uma maldita doença incurável conseguiu separá-los daquela paixão na melhor altura das suas vidas, quando planeavam selar os sentimentos, ter filhos e constituir família.
Recorda-se como se fosse hoje aquele dia que marcaria para sempre a sua vida. Nunca mais foi o mesmo. A jovialidade e alegria do seu rosto deu lugar a um semblante melancólico que com ele acordava todas as manhãs não conseguindo disfarçar muitas vezes a dor que aquela separação lhe causara. Desde o diagnóstico que tinha definido ir viver com seus pais para aquele país nórdico. Seria a melhor decisão.
- Vive a vida, alegremente, disse-lhe de uma forma seca e pesarosa, tentando esconder as reais emoções que lhe assaltavam o corpo e a mente. Sabia o quanto era difícil para ele ouvir de sua boca aquelas palavras e sobretudo a escolha feita, porém já tinha tomada a sua decisão e nada parecia demovê-la no sentido de ficar com ele. Ele apenas conseguiu lançar-lhe um sorriso cruel.
- Porquê? Se até agora vivemos juntos para o bem e para o mal, na alegria e na tristeza, porque me fazes isto? Partes-me o coração com essa tua teimosia que julgo até um pouco egoísta. Então e eu? Não me dás sequer a oportunidade de te mostrar que te posso servir melhor neste momento de provação e de tristeza? Será que ainda não sabes que és o meu despertar e o meu adormecer assim como eu julgo ser para ti?
- Por favor. Ajuda-me. Não tornes as coisas mais difíceis. Amar-te-ei para todo o sempre, até ao meu último suspiro, sabes bem disso. Em nome do melhor que tivemos, aceita a minha escolha que acredito não será a que estavas à espera. Suplico-te por tudo em nome do nosso amor.
Lembrava-se daquele episódio como se fosse hoje apesar de dez anos já terem passado. Estavam ambos na primavera de suas vidas e num segundo o mundo desabou sobre eles.
Na missiva pedia-lhe a sua presença por julgar escasso o seu tempo de vida.
Assim, sem mais nem menos, como quem já há muito esperava que este momento surgisse para lhe comunicar e para o ver uma última vez.
Saiu decidido para a rua em direção a sua casa situada em pleno casco histórico da cidade, cujas ruas em tempos tantas vezes os viram passar em carícias e abraços e gargalhadas estridentes.
Naquele fim de tarde outonal, o ar corria frio pelas ruas da cidade. As árvores que pontualmente ia encontrando vestiam-se com as cores da despedida das suas folhas que facilmente caíam, criando mantos coloridos e tapetes fofos, dando razão à afirmação de que o outono é a natureza a envelhecer: o amarelo imperial, o vermelho alaranjado ou o castanho avisavam que dentro em breve ficarão despidas, expondo-se ao frio invernal. Os seus olhos tristes comtemplavam tal cenário como uma espécie de presságio à morte que se avizinhava e que seria um pouco sua.
E assim continuou entretido com os seus pensamentos. O seu coração batia descompassadamente à medida que se aproximava daquela casa que em tempos foi seu porto de abrigo e quase saia disparado daquele peito que tantas vezes procurou o conforto do dela para momentos de ternura e onde muitas vezes calmo acordou.
- “Como eras bela, foste a minha fiel companheira de jornada entre os dias claros e as noites de negro vestidas. Já sinto saudades”
Pensou ele antes de se apresentar em frente à porta onde se afigurou a mãe dela, que parecia já o esperar, tal foi o esgar de felicidade quiçá para acalmar um pouco a turbulência e o peso do luto que uma morte traz consigo.
- Finalmente, vejo-te como se de uma aparição se tratasse. Entra, vem depressa que ela ânsia pela tua presença. Há dias que só fala em teu nome. Chego a acordar no meio da noite por causa dos seus soluços.
O coração continuava acelerado.
Entrei um pouco a medo no quarto, no qual se podia ver um pequeno roupeiro uma cadeira e uns cadernos de apontamentos que jaziam sobre a escrivaninha e que eram a sua única companhia, junto à cama onde a encontrei a sorrir, enquanto fechava um livro que acabara de ler.
- Eis aquele por quem meus pensamentos voaram nestes últimos tempos. Vem, aproxima-te. Quero sentir novamente o teu cheiro. Deixa-te de lamúrias e venha de lá aquele sorriso. Acariciemos o outro, caiamos nas nossas bocas mais uma vez, a última, e, sorridentes, deixar-nos-emos morrer de pequenas e contínuas mortes. Estamos sós… até amarmos ou morrermos”. Parafraseando ou não, aquilo caiu para ele com estrondo, abalou ainda mais a fraqueza de seu espírito.
Uma lágrima caiu para logo de seguida, ficarem abraçados na imensidão que parecia agora o tempo. Conversaram como se não houvesse amanhã, às vezes entre sorrisos outras vezes eram as lágrimas que apareciam para apertar mais aqueles corações despedaçados pela dor do momento e do que viria depois.
…… Deixou-se levar pelo desejo e devagar foi de encontro aos seus lábios que achou húmidos e adocicados. Sorriram. Ela retribuiu, afagou-lhe os cabelos colocando a cabeça dele no seu peito. Ficaram aconchegados longos minutos sem nada dizer. Acreditando que ambos estariam a pensar em mil e uma coisas. Como se as suas vidas passassem agora em frente aos seus olhos numa viagem que estava prestes a terminar.
A um suspiro dela, ele tentou fazer-se forte, impávido e sereno, mesmo sem querer. Fim. Era isso, resumia-se a esse termo. Tão vazio de significado, escusado, até de existir.

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