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O 1.º Congresso de Ecocrítica em Portugal

Beco sem saída

O 1.º Congresso de Ecocrítica em Portugal

Ideias

2018-03-30 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Organizado pelo Green Lines-Instituto para o Desenvolvimento Sustentável (GLI; uma ONG-D sedeada em Barcelos), teve lugar há duas semanas, entre 14 e 16 de março, na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, o Ecocrítica 2018: Congresso Internacional sobre Literatura, Artes e Ambiente Ecológico. Durante esses três dias, investigadores dos cinco continentes fizeram um ponto de situação da Ecocrítica e perspetivaram novas avenidas que a mesma começou a trilhar.
Tratou-se de um evento científico de grande relevo no nosso país, por ter sido o primeiro a realizar-se nesse domínio de estudos em incessante desenvolvimento pelo planeta, em boa medida resultante da iniciativa de duas académicas nacionais de reputação firmada na área da Literatura Portuguesa, Maria do Carmo Mendes (Universidade do Minho) e Isabel Ponce de Leão (Universidade Fernando Pessoa), e da visão, que importa saudar, do GLI, na pessoa do seu presidente, Sérgio Lira, igualmente académico reconhecido no domínio da Museologia e do Património Cultural, acompanhado por Cristina Pinheiro e Sérgio Amoêda também do GLI.

Atentando na palavra, logo se percebe que ela resulta da composição dos termos Ecologia e Crítica. Consensualmente se considera que foi originalmente proposta por William Rueckert no artigo seminal Literature and Ecology: An Experiment in Ecocriticism (1978), onde a descreveu como «[a] aplicação da ecologia e conceitos ecológicos ao estudo da literatura ()», mas só quase duas décadas mais tarde, após a publicação da coletânea editada por Cheryll Glotfelty e Harold Fromm, The Ecocriticism Reader: Landmarks in Literary Ecology (1996) é que passou a servir para designar um ramo novo ao tempo! dos estudos literários, tendo aí recebido a definição profusamente citada de «estudo da relação entre a literatura e o ambiente físico».
No Ecocrítica 2018 não somente se discutiram os limites e as limitações desta definição estabelecida pela académica estaduni- dense Cheryll Glotfelty, como ficou claro que os estudos ecocríticos mais recentes de algum modo a extravasaram para acolhe- rem contributos fora da literatura, mas em diálogo e relacionamento interdisciplinar com ela.

É impossível aqui relatar a diversidade e, sobretudo, a qualidade pela profundidade de tratamento dos assuntos das comunicações feitas apresentadas no Ecocrítica 2018. Cingir-me- -ei, portanto, a considerações mais gerais. Desde logo a de que o grande mérito deste encontro científico foi ter conseguido passar bem a mensagem a assistência presente no grande auditório com duzentos lugares e nas salas das sessões paralelas praticamente esgotadas pareceu tê-la bem entendido de que as obras literárias (e artísticas, em geral) são um lugar privilegiado para a crítica numa perspetiva ecologicamente atenta e comprometida e também para a metacrítica desses exercícios capaz de chegar a um público mais amplo que aquele que o discurso mais esotérico das Geociências atinge.

Pode perguntar-se: mas que tipo de crítica e de quê? Em especial de denúncia de catástrofes de origem humana já acontecidas (e.g. O Acidente de Christa Wolf, ficção sobre o acidente nuclear de Chernobyl em 1986) ou em risco de acontecer (e.g. Solar de Ian McEwan, sátira sobre um Nobel da Física obcecado com uma solução para as alterações climáticas globais ba- seada na energia solar).
Os estudos de Ecocrítica, claro, vão muito para além do acabado de dizer, mas este é certamente um dos caminhos que seguirão na era do Antropoceno que se encontra aberta.

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