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O abandono e o adulto difícil

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O abandono e o adulto difícil

Escreve quem sabe

2019-09-22 às 06h00

Joana Silva Joana Silva

A alma resguarda segredos que não partilhamos com ninguém. Memórias pessoais. A vida põe cada pessoa à prova. Somos mais fortes do que imaginámos ser. E o querer é poder, mesmo embora pareçamos que estamos presos num círculo fechado, sem qualquer tipo de saída. E por vezes, faltam as forças e não se consegue ver nada de positivo na vida. Quantas vezes se escuta, “estou cansado/a de tudo e de todos”?! Trata-se na verdade da desmotivação psicológica face à vida. Em alguns casos esta motivação desenvolve quadros mais severos da patologia mental, como a depressão que pode culminar no suicídio. Mais do que perceber se a pessoa apresenta um quadro depressivo com alterações neuroquímicas cerebrais ( e daí a importância da prescrição de fármacos) importa igualmente perceber que circunstancias ou pessoas desencadearam a tristeza ou vazio .

O abandono emocional na infância tem consequências gravíssimas na vida adulta. O abandono não significa o falecimento dos progenitores. Existem muitos adultos que em crianças foram órfãs de pais vivos. Pais que cumpriam com as necessidades básicas como a alimentação e higiene mas sem quaisquer tipo de afeto com o acréscimo de violência física e psicológica. Pais que pareciam não amar os filhos. As criança, rejeitada pelos pais, apesar de não ter maturidade cognitiva suficiente para perceber determinadas situações vive uma solidão precoce. Sente que ninguém, por mais que faça tudo para agradar, gosta ou se preocupa com ela.

Sendo um abandono emocional de longa duração faz com que hajam consequências na vida adulta. Certamente que já assistiu ou escutou alguma opinião acerca de outra pessoa em que referiam em termos de personalidade “difícil”. Esse adulto “difícil” provavelmente viveu experiências negativas na infância o que faz com que não adote os melhores comportamentos pela distorção emocional que viveu e presenciou de coisas ou situações desagradáveis.
Passa a perceber e a ler a realidade das situações do ponto de vista pessimista e negativo. O adulto “difícil” tem alguns traços característicos da personalidade: tem uma tendência para ser mais agressivos na relações interpessoais com outras pessoas (seja na forma como fala e até nas atitudes).

É extremamente desconfiado porque como não tive suporte emocional durante a infância, tem dificuldades em acreditar em alguém, porque considera que vai ser traído ou abandonado mais cedo ou mais tarde. Daí ter a necessidade constante de que outras pessoas normalmente com as quais se relaciona mostrem que gosta dela. É muito auto critico com ele próprio e com os outros. Tem frequentemente oscilações de humor. Muitas vezes é na verdade uma pessoa muito sozinha que apesar de estar rodeada de pessoas. É por norma reservado e não conta nada da sua vida. Nunca se sente satisfeita e nada lhes preenche o vazio emocional. É bastante inseguro e dependente da aprovação emocional de outras pessoas, isto é, sente a necessidade de sentir que os outros reconhecem valor em alguma área da sua vida, normalmente na profissional. Quer ser felizes mas a solidão e os traumas da infância impede e não sabe como superar isso.

Quando está mal, tem dificuldade a erguer-se emocionalmente e auto reprime-se com despolarizações pessoais. Tem dificuldade em ter relações mais intimas com outra pessoa, como por exemplo, alguém muito desconfiado em relação ao companheiro/a ao mínimo sinal despoleta logo uma crise de ciúmes. Traduz-se basicamente na expressão popular “Por tudo e por nada, arranja argumentos onde não existem”. No campo profissional a necessidade de ser valorizado faz com que descuide outras áreas de vida, como a sentimental. A pessoa “difícil” nem sempre é uma má pessoa.

E no entanto, tende a associar-se a esse rótulo. Simplesmente usam uma máscara de defesa para se protegerem do mundo. Vivem presos a uma espécie de auto tortura psicológica em que essa mesma pessoa, acha que nunca vai ser amada e que irá sempre ser rejeitada. As vivências do abandono emocional, não são transitórias e nem passam com o tempo. Tendem a piorar se não tratadas ou acompanhadas por um profissional especializado, como o psicólogo. É preciso ir à raiz dos problemas, “tocar nas feridas” e voltar a nascer. A mudança só é possível quando se aceita e se reconhece que algo está mal e que está a bloquear a felicidade. Valorize-se! A superação de um abandono é possível.

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