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O absentismo do PS nas presidenciais

Decisões que marcam

O absentismo do PS nas presidenciais

Ideias

2020-11-17 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

“Os militantes, simpatizantes e eleitores do PS saberão formar em consciência a sua opinião, participar ou acompanhar a campanha eleitoral e decidir o seu voto”.
Foi esta, basicamente, a deliberação que a Comissão Nacional do PS tomou sobre as próximas eleições presidenciais.
Os comissários nacionais do PS não ignoraram que às presidenciais do início do próximo ano se apresenta “a candidatura de Ana Gomes, distinta militante socialista”, conforme fizeram questão de sublinhar, mas tal não os demoveu de assumir uma posição equívoca.
Na realidade, a moção de orientação aprovada pelo órgão máximo entre congressos, saúda todas “as candidaturas presidenciais já apresentadas, que defendem a Constituição e querem consolidar e reforçar o regime democrático”, mas não assume qualquer compromisso político com a sua militante. “As eleições presidenciais serão, assim, para cada um dos militantes, simpatizantes e eleitores socialistas, um exercício de liberdade e de cidadania”, conclui o documento aprovado pela Comissão Nacional.
Ao decidir não apoiar formalmente qualquer candidato e conceder (?) liberdade de voto aos seus militantes, o PS está a colocar-se numa posição que, do ponto de vista eleitoral, pode ser cómoda, pode até ser vantajosa, mas que não deixa de ser politicamente incompreensível. É que estamos a falar do maior partido político português, um partido que tem a obrigação de se empenhar activamente em todos os actos eleitorais, mas que na prática continua a insistir na tecla da desvalorização de uma eleição de enorme relevância política, como é o caso da eleição presidencial.
Se há cinco anos, face a duas candidaturas da mesma área política dos socialistas, se poderia de algum modo fazer um esforço para compreender a posição do PS, a verdade é que hoje a situação é completamente distinta.
Em 2016, os socialistas puderam escolher entre a antiga presidente do partido, Maria de Belém, e o independente e antigo reitor da Universidade de Lisboa, Sampaio da Nóvoa, duas personalidades com idênticos ideais políticos. Para as eleições do próximo ano, e acreditando que o PS não está a “orientar” os seus militantes e simpatizantes para o apoio às candidaturas partidárias já anunciadas, sobrarão a “distinta militante socialista” e o actual Presidente da República para o exercício da tal liberdade de voto!
Não está em causa, obviamente, a “avaliação positiva” que a Comissão Nacional do PS faz ao atual mandato do Presidente nem tão pouco a valorização da forma como tem praticado a função presidencial. A questão política de fundo prende-se exclusivamente com a circunstância de Marcelo Rebelo de Sousa ser um candidato oriundo e apoiado pela direita, a tal direita que ainda agora deu a mão a um partido da extrema-direita racista e xenófoba, e portanto ideologicamente nos antípodas dos ideais do PS.
O absentismo do PS nas presidenciais é absolutamente incompreensível se atendermos quer à importância da eleição quer à relevância do partido no país. Se mais não houvesse, isso seria suficientemente decisivo para justificar que o PS apresentasse um candidato próprio. E a realidade mostra-nos que as indefinições nesta matéria não têm dado bons resultados…
Começa a ser preocupante esta tendência do partido para se esquivar às presidenciais. "Faz-me um bocado de impressão que um partido da importância do PS não compareça às eleições presidenciais", lamentou-se há tempos o histórico socialista Manuel Alegre, lembrando que já "são duas eleições em que o PS não tem uma posição oficial".
Na mesma linha, o dirigente nacional Pedro Nuno Santos fez questão de sublinhar aquilo que deveria ser óbvio para todos, ou seja, que o Partido Socialista "deve ir a jogo em todas as eleições".
Assim não foi entendido pela maioria dos comissários nacionais que, mesmo perante a existência de uma candidatura de uma destacada militante socialista, Ana Gomes, brilhante diplomata e com provas dadas no combate aos interesses instalados, optou por uma posição ambígua, aparentemente para não incomodar o candidato da direita.
Percebe-se que o PS apresente, como prioridades políticas, “combater a pandemia, recuperar Portugal, cuidar do futuro”. Mas tal não é incompatível com o desenvolvimento normal das acções polí- ticas do maior partido, entre as quais se inclui, naturalmente, a participação nos diferentes actos eleitorais. Aliás, em relação às eleições presidenciais, é o próprio PS que reconhece que “têm a maior importância para o país”, já que se trata de escolher “o mais alto magistrado da nação, garante do cumprimento da Constituição, do regular funcionamento das instituições democráticas, e comandante supremo das Forças Armadas”. Será caso para perguntar: afinal, em que ficamos?

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