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Braga, quarta-feira

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O acessório e o essencial: a propósito das Comemorações do 25 de Abril

A lampreia na Escola, uma aluna especial!

Ideias

2011-04-28 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

1 - O acessório
O discurso de Jorge Sampaio proferido no decurso das comemorações do 25 de Abril no Palácio de Belém foi um discurso a muitos títulos notável do qual retive uma frase bastante reveladora do nosso carácter: damos frequentemente importância ao que é acessório em detrimento do que é de facto essencial. Assim é na verdade, como de imediato se viu aliás ora pelas reacções à ausência de Teixeira dos Santos, ora pelo facto de as cerimónias oficiais não terem decorrido no Parlamento, ora pelo facto de se duvidar sobre o sentido de oportunidade de Cavaco ter convidado três ex-chefes de estado para discursar…
O que é que tudo isso nos interessa? Nada. Acessório, portanto.

2 - O essencial
A segunda ideia que retenho do discurso de Jorge Sampaio centra-se nesta expressão: “responsabilidade partilhada”.
A ideia de responsabilidade partilhada evoca desde logo uma outra: a do consenso. Ora, como já tive a oportunidade de o dizer publicamente esta semana, nós podemos ficar-nos pelas análises políticas mais imediatas. A primeira será o facto de este apelo ao consenso, aliás transversal aos quatro discursos, se traduzir numa espécie de preparação do eleitorado e da classe política para a eventualidade de se assistir após o 5 de Junho à formação de um governo minoritário ou de coligação. Ainda na linha desta primeira leitura, poderíamos reforçar o argumento sublinhando por exemplo os elogios de Mário Soares quer a Paulo Portas, quer a Passos Coelho a quem chamou de pessoa afável e bem intencionada.

A segunda leitura política que se pode fazer prende-se com a capitalização imediata que José Sócrates bem soube fazer do apelo ao consenso e à responsabilidade partilhada (que muito invocou antes do chumbo ao PEC IV); em contraste com a posição de Passos Coelho, sempre muito espartilhado entre a necessidade de não fugir à negociação política, ainda que de bastidores, e o medo de ser visto como fraco e sem identidade política própria.

Mas também podemos partir para um outro tipo de análise, mais profunda e muito necessária na sociedade portuguesa, e que se traduz nesta cultura de desconforto e resistência à ideia de consenso. Eu compreendo que ao cabo de quase 5 décadas de ditadura a nossa sociedade tenha aprendido a desconfiar do sentido dos consensos. Mas a verdade é que consenso não tem que significar sempre e só falta de identidade ideológica, ausência de ideias próprias, ausência de debate, cedência, perda, fraqueza, homogeneização. Ora, enquanto se persistir numa interpretação ataviada do sentido mais democrático e nobre da palavra consenso, o que teremos será sempre este bloqueio medonho que nos impede de assumir uma nova atitude política.

Passos Coelho foi bem o exemplo dessa incapacidade de pensar mais além sobre o que significa consenso, o que significa responsabilidade partilhada, como se pôde ver pela pressa com que veio contrariar a ideia dos consensos, como se temesse perder o lugar e a imagem de grande líder que ele julga já ter assegurado junto do eleitorado.

3 - Outra vez o acessório
De facto, isto de ser-se um grande líder tem muito que se lhe diga. E quando não se tem muito a certeza dos dividendos trazidos por alguns caminhos, é melhor nem os percorrer.
Um dos caminhos mais difíceis de trilhar a qualquer líder é o da exploração mediática da sua esfera privada. Se não o pode fazer com a absoluta certeza do acompanhamento de profissionais do marketing político, o melhor mesmo é deixar bem resguardada aquela que deve ser sempre uma esfera sagrada da vida de cada indivíduo, e à qual, em boa verdade, é bom saber que se pode voltar, qual refúgio, mesmo quando tudo na vida pública corre mal. A utilização da família como trunfo político é um risco que comporta grandes perigos, sobretudo para quem ainda estiver numa fase de consolidação de imagem pública. Não é Sá Carneiro quem quer!

4 - Para voltar ao essencial
Da riqueza imensa que há na criação musical do nosso país, deixo aqui parte da “Cantiga de Maio”, de Carlos do Carmo, com letra de Joaquim Pessoa (1976).

Meu país vontade corcel de saudade vencida
Meu povo em viagem ganhando a coragem perdida
Meu trigo meu canto meu abril de espanto doendo
Meu abril tão cedo tão tarde meu medo morrendo
Meu amor ausente meu beijo por dentro queimado
Num tempo tão lento tardamos no vento até quando
Até quando?

Até quando?

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