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O Antropoceno destruiu a ordem natural?

Beco sem saída

O Antropoceno destruiu a ordem natural?

Ideias

2018-06-08 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

O conceito de causalidade é, certamente, um dos mais importantes para a organização da vida quotidiana e de muita da investigação científica, que bastante tem dado que pensar aos filósofos. Da sua assunção dependem outras noções que temos, como as de espaço e de tempo, sendo, por isso, mais básico que elas. Se conjeturarmos o seu desaparecimento das nossas mentes, por algum motivo eventualmente misterioso, conseguiremos imaginar que teria consequências ainda mais perturbantes para a nossa relação com o mundo e com os nossos semelhantes que as que ocorreriam com o varrimento dos nossos cérebros das noções de negação, de verdade ou de justiça.

Em termos muito genéricos, esse conceito é usado para referir uma relação assimétrica entre um processo (chamado causa) e outro processo (denominado efeito) no sentido em que o primeiro é responsável pelo segundo (pelo menos em parte) e o segundo dependente do primeiro (pelo menos em parte).
O seu cunho é essencialmente metafísico, ou seja, representa algo que acreditamos ser verdadeiro com base em argumentos plausíveis mais do que em evidências a respeito da constituição do mundo natural. Com efeito, está muito arraigada em nós a convicção de de que a natureza tem uma ordem causal e que, por conseguinte, pode ser descrita como um sistema de processos de causa e efeito interrelacionados, manifestamente regulares e que, por exibirem esses padrões de comportamento, permitem abstrações generalizadoras que lhes criam um aspeto de estarem a seguir leis. Ele tem, pois, poderes explicativos, de modo que, sem ele, será difícil perceber o que ocorre no mundo.

É claro que, como reivindicam boa parte dos empiristas daqueles que mantêm as suas crenças rigorosamente dentro dos limites da experiência percetiva, por mais sofisticada que ela seja é praticamente impossível sabermos decisivamente se o mundo natural tem realmente essa ordem causal, uma vez que ninguém consegue observar causas ou efeitos, apenas chegando a elas teoricamente, ou seja, mediante conexões construídas no intelecto.
Acontece também que nos habituámos a acreditar que o mundo natural já possuía essa sua estrutura causal e respetivos processos antes de nós, humanos (Homo sapiens), termos aparecido há uns 350.000 anos, o mesmo é dizer que ele seria anterior à nossa existência e independente da nossa capacidade de agir conscientemente.

Estas nossas crenças de estimação, contudo, estão a ser seriamente postas em causa pela hipótese do Antropoceno de que entrámos já num novo capítulo da histórica da Terra em que a espécie humana tem um poder de impacto na mesma, à escala global, equivalente ao de outras forças da Natureza e pedem revisão. Efetivamente, se o Antropoceno for real, como parece cada vez mais consensual, duas grandes implicações têm de ser retiradas. Uma é a do fim monopólio da causalidade pelo mundo natural. Esse facto ontológico maior forçará uma alteração profunda da nossa milenar visão do mundo. O seu reconhecimento arrastará o repensar de noções muito familiares como, por exemplo, as de natureza e cultura, de sujeito e objeto, de ecossistema e de sistema social. Em razão disso, devemos preparar-nos para viver num mundo de entidades híbridas. Outra é a da aparente ausência de uma explicação causal para desse Acontecimento socionatural sui generis que é o Antropoceno. A sua magnitude, o seu aparecimento súbito e imprevisto sinalizam que há algo de errado com os nossos melhores esquemas de abordagem e de inteligibilidade do real.

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