Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O ausente da república

O Estado da União

Ideias Políticas

2015-10-13 às 06h00

Pedro Sousa

Ao longo deste ano, já por duas vezes, discorri nestas páginas sobre Cavaco Silva, o Sr. Presidente da República.

Na altura disse e hoje repito que não tenho, nem de perto, ”...nenhuma simpatia pessoal, política e institucional pelo Dr. Cavaco Silva”. Nessas reflexões, assumi, ainda, uma dose considerável de repulsa pela falta de capacidade política para intervir em muitas circunstâncias em que penso que devia tê-lo feito e por se ter acometido, erradamente, a silêncios verdadeiramente incómodos e “comatosos”, reveladores, por demasiadas vezes, de uma profunda falta de sentido institucional, assumindo posições e tomando decisões que seriam entendíveis e razoáveis se ele fosse, apenas, o “guardião” dos interesses do Governo de Passos e Portas e não, como está obrigado pela Constituição da República Portuguesa, o “guardião” dos superiores interesses de todos os Portugueses.

Recordo-me, por exemplo, de a pretexto das comemorações do 25 de Abril de 2013, Cavaco Silva ter tido a distinta lata de, de forma indefectível, ter defendido o Governo de Passos e Portas, isentando-o de culpas numa série de questões (desemprego, fuga de cérebros, ataque brutal à classe média, desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde e, à altura, três anos consecutivos de recessão económica, etc.) que foram, em grande medida, da sua responsabilidade.

Tenho, também, presente tudo o que se passou com o caso BES, um dos mais graves casos financeiros, económicos e políticos da Democracia Portuguesa. Um caso com contornos extremamente nebulosos, difusos, com legítimas suspeitas de práticas criminosas e que resultou em perdas financeiras muito significativas para milhões de pequenos aforradores (não sendo nunca demais lembrar que, muitos deles, perderam as suas poupanças de uma vida inteira) e que constituirá, “ad eternum”, a mancha maior da vida política de Cavaco Silva, de Passos, Portas e seus pares.

Semanas antes do fatídico episódio do Banco Mau e do Banco Bom, Cavaco Silva, que meses mais tarde disse nunca ter feito uma declaração sobre o BES, afirmou, taxativamente (é público, está publicado e pode, facilmente, ser confirmado mediante uma qualquer pesquisa no 'Google'), em Julho de 2014, de visita à Coreia do Sul, que os “...Portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo”.

A fechar, até porque está fresco e diz respeito às eleições do passado dia 4 de Outubro, quero, também aqui, recordar que Cavaco Silva rejeitou antecipar em alguns meses as eleições legislativas, o que fazia todo o sentido, a fim de permitir que o Governo que viesse a ser eleito pudesse preparar, apresentar e governar com o seu próprio Orçamento de Estado, de acordo com o programa de Governo que os Portugueses viessem a sufragar.

Passaram as eleições, o quadro parlamentar mudou radicalmente e, como primeira medida deste novo ciclo político que, necessariamente, teria de se abrir face aos resultados eleitorais, Cavaco furtou-se, vergonhosamente, a participar nas Comemorações do 5 de Outubro, data da implantação da República a que Preside, demitindo-se de ser o polo agregador dos consensos que, nos termos da Constituição, deveria procurar a fim de encontrar e promover uma solução de Governo estável para Portugal e para os Portugueses.

Demitindo-se, ausentando-se, assumiu um papel de espantalho institucional que lhe retirará toda a legitimidade para poder condicionar qualquer solução política que seja possível encontrar dentro do actual recorte parlamentar, saindo da política pela porta pequena, na verdade, aquela que melhor assenta ao seu contributo à vida pública portuguesa.

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