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O beijo

O Estado desta Nação

O beijo

Ideias

2023-09-03 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Stefane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, pronunciou-se muito assertivamente sobre o Beijo do senhor Rubiales à menina Hermoso. Estou em crer que não a ouvíamos desde o beijo de Judas, também ele à falsa-fé e com consequências de que estamos inteirados. Fica-nos o consolo de que seja coisa para uma vez a cada dois mil anos.
Nestas euforias do desporto eu não sei se é muito usual que as expansões cheguem ao beijo nos lábios, mas se não vão, imagino que seja porque os protagonistas se refreiem e se fiquem por um não-beijo para evitar falatórios. Não se livrarão, no entanto, de ofender norma asséptica, isto porque percebamos claramente a boa parcela de desportistas e oportunistas a beijoca cantada que lhes explode no redondo das bocas, tudo menos puras, tudo menos castas. Distingo desportistas e oportunistas e bem se atinge o que viso. Mas, por via das dúvidas aqui vai. A formosa menina Hermoso é desportista. No ensejo, poderia ter atingido um topo de carreira, porventura irrepetível. Alegria como outra sem igual, olhos nos olhos com o dirigente, como ela exultante, pespega-lhe a moça um beijo à russa, só que entre cavalheira e cavalheiro. O que resultaria daqui? Nada! Nada vezes nada! História em tudo igual, mas colada ao contrário, com cuspos de oportunista-sexista, e é uma escandaleira de agenda em secretaria dada aos inúteis da ONU.
Beijo que não terá sido de todo à falsa-fé, que não coroará um transporte incontível do momento, protagonizável por qualquer parelha de pessoas – dois indivíduos do género masculino, eventualmente do feminino, hipoteticamente não-género ou outra sub-segmentação. «Un piquito!?» – terá disparado o tipo, não sei com que peremptórios, e ai da futebolista, que ante recusa jamais subiria a relvado. Ou dubitativo, mas tão em babas, que a atacante presa por tenaz de lado e de outro da cabeça, não tivesse como se defender?
Beijo em fora-de-jogo, beijo que não terá sido espontâneo, que não terá sido inocente. Beijo de quem já andaria com ela fisgada, e era ali ou nunca? Beijo de marmanjo de fraca índole, mas beijo dele e dela – nosso, porque ante câmaras. Beijo para pedido de desculpas, para reparação pecuniária por danos morais e de imagem, que a jogadora entregasse a organização de apoio a vítimas de desmandos de outra escala. Beijo para uma sanção disciplinar, porventura para uma destituição desonrosa. Mas nunca para um charivari de dias de enfiada, da Rua à ONU, como se todos tivéssemos que marcar ponto do lado bom.
Talvez falhemos o lado bom por excesso de reacção, que não é história que consubstancie uma espiral de Niemöller-Brecht-Mayakovsi: levaram o meu vizinho judeu, e eu não me incomodei, etc.
Episódio deplorável que nos remete para o quanto tenhamos progredido, num sentido, e regredido, noutro. Com que estranheza, distância, reprovação, não víamos beijos nos lábios de pais e filhos? Com que naturalidade não os vemos hoje! E o Príncipe, que Bela liberta de malefício à força de puro beijo: não o vêem franjas de eleitos como um abuso, como um avanço machista? Engraçado que não tenha havido sururu por beijoca de princesa em sapo de tanque de jardim.
Impossível não recordar a primeira versão do conto da Bela Adormecida, de Basile, publicada em 1634, de título “Sol, Lua e Tália”, em que Tália, para não dizer menos, é violada e dentro ainda da sua ausência é mãe de gémeos, e por um deles resgatada à maldição, porque sugando-lhe o dedo lhe extrai a farpa envenenada.
Conto, para cuja exegese não disponho de espaço, e seria em vão.

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