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O calendário, marcador e regulador de tradições

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Ideias

2017-01-04 às 06h00

José Hermínio Machado José Hermínio Machado

Tomemos, dada a proximidade, as tradicionais festividades do ano novo, tais como são configuradas pela comunicação social e pelas redes sociais, tais como são vividas pelas pessoas, tais como são promovidas pelo turismo: estamos perante a tradição como uma realidade simultaneamente densa e leve, impositiva e receptiva, quer em termos de memórias, quer em termos de possibilidades de realização.

Do «faz-se assim» ao «vale tudo», cada um diz o que pensa, conta o que viveu, sugere o que pode ter cabimento. Se procurarmos elementos estruturantes, acharemos o velho e o novo, o ciclo da vida, ancorados em rituais de festa e de fogo, associados a símbolos de permanência e de efemeridade: os votos, os cumprimentos, os ritos de celebração ligados à roupa, à comida, à bebida, até aos jogos ou competições ou desafios, como corridas, banhos, danças, pantomimas.

Numa concepção do sagrado, as religiões condensam nesta celebração as preces de propiciação e de agradecimento, os compromissos de renovação espiritual e social, o reforço dos laços familiares, as práticas de solidariedade. Com os mecanismos tecnológicos que hoje aceleram a globalização de modos de ser e de estar e de fazer, a diversidade de celebrações da passagem de ano confirma quer a manutenção arreigada de tradições, quer a adaptação e renovação das mesmas, com mistura de saberes e a integração de práticas vivenciais da mais diversa proveniência.

O calendário, este modo de organização das relações do homem com o cosmos, com os ciclos da lua e do sol, é um marcador cíclico das nossas actividades e das nossas festas, estrutura, por si só, a nossa vida em torno de tradições, nas quais cabem tanto mecanismos de imposição como mecanismos de variação.
A visibilidade do calendário como marcador e regulador é mais nítida nas sociedades agrárias, em virtude da regulação dos trabalhos agrícolas ao longo das quatro estações.

O afastamento em relação às práticas agrícolas e a mudança que estas sofreram em virtude dos novos sistemas de produção em estufa ou em climas condicionados, têm determinado mudanças de configuração de tradições, mas isso não significa o seu apagamento, antes favorece formas de resistência e de resiliência das mesmas em aspectos que até então estavam menos evidenciados.

Os positivistas do século XIX que começaram a estudar as tradições com aquela esperança de melhor descobrirem os caminhos da modernidade, convencidos de que as aliviariam das debilidades cognitivas como superstições, medos, temores, fantasias e espiritualismos vários, espantar-se-iam certamente se agora verificassem quanto essas características se tornaram evidentes e se propagaram cada vez com mais requinte civilizacional.

Ao fim e ao cabo, as relações do homem com o mundo, mesmo ancoradas num espírito científico, objectivo, mensurável, previsível, continuam a promover a recorrência de ansiedades, medos, temores, superstições, que requerem sistemas de equilíbrio e de integração no quotidiano.
As marcações de festividades cíclicas ao longo do ano, iniciadas com a celebração da festa de ano-novo, quer tenham um cunho marcadamente religioso, quer não, continuam a testemunhar a dinâmica de tradições imprescindíveis ao conhecimento e à compreensão de nós mesmos, enquanto indivíduos e enquanto povos. Vamos então ver como vai ser daqui para a frente.

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