Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O Caminheiro na Construção da Cidade

O Estado da União

Escreve quem sabe

2018-03-02 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Baden-Powell definiu o caminheirismo como sendo uma Fraternidade do Ar Livre e do Serviço, este conceito desenvolve-se em volta de três dimensões fundamentais: o Caminho, a Comunidade e o Serviço, com um valor simbólico e enquadrador da vida do caminheiro na pedagogia da Secção.

Caminho
O caminho evoca o ritual da viagem iniciática que, noutros tempos, assinalava, nas nossas sociedades, a passagem da adolescência à idade adulta. No caminheirismo, o jovem adulto é desafiado a escolher um itinerário de descoberta e de ação que o leve a tornar-se artesão de um mundo novo. Assim, o caminho simboliza a abertura, a largueza de vistas, a capacidade de aceitar a mudança e de viver na própria mudança, mas o caminho, é também um espaço de vida despojada, de rejeição do supérfluo e de atenção ao essencial. Desta forma, tal como o caminho dos peregrinos, também o dos caminheiros é testemunho de vida cristã. Finalmente, o caminho, é um lugar de perseverança, de experiência de uma lenta e paciente construção de si mesmo, de aprendizagem da capacidade de se comprometer, para além do imediato, e de ir até ao fim do seu compromisso. No caminho de Emaús, Cristo revelou-se aos seus discípulos, caminhando com eles, lado a lado

Comunidade
Durante a caminhada, o jovem é interpelado a avançar, lado a lado, com os caminhantes. O caminho ajuda-o a desenvolver a sua capacidade de acolher o outro, de o ajudar a avançar, de partilhar com ele as alegrias e tristezas da jornada, os esforços e os momentos de descanso, os planos e as esperanças que constituem a própria caminhada, ou que, durante esta, se vão esboçando. É o apelo das Bem-Aventuranças que dá sentido a essa caminhada, que se torna assim experiência de comunidade, de partilha, de amor e de construção da paz.
No caminho de Emaús, Cristo foi reconhecido, pelos discípulos, apenas pela fração do pão

Serviço
Segundo o apelo das Bem-Aventuranças, essa comunidade não pode viver virada sobre si mesma. O processo da caminhada é uma dinâmica de descoberta, vivida numa relação de amor fraterno e de "receber dando-se em troca". A verdadeira descoberta só é possível no Serviço que leva o jovem adulto a focar-se mais na responsabilidade dos seus deveres para com os outros, sobretudos dos mais frágeis, materializando, de certa forma, dois dos mais célebres conselhos de Baden-Powell: «procurai contribuir para a felicidade dos outros e assim encontrareis a vossa própria felicidade» e «procurai deixar o mundo melhor do que o encontraste».
Esta última Secção do escutismo é encarada como um caminho que ajudará a construir o cidadão responsável e solidariamente ativo, agindo à luz da fé que professa, tornando-se um semeador de esperança e um construtor de paz. Assim sendo, é com naturalidade que vemos que o C.N.E. reconheceu ao caminheiro capacidade eleitoral ativa, no seu Clã (designação da sua Secção), no Agrupamento, no Núcleo (estrutura territorial correspondente aos arciprestados ou aos concelhos) e na Região (que corresponde ao espaço da diocese).
Nesta partilha de responsabilidades em comunidade, o Corpo Nacional de Escutas, depois de ter promovido uma revisão do Programa Educativo, desencadeou um processo de revisão estatutária visando, de entre outros temas, alargar a capacidade eleitoral ativa dos Caminheiros também ao plano nacional.
Esta ideia já fora avançada na última revisão estatutária, em 1991, mas não reuniu o consenso necessário, hoje, 27 anos depois, pelo decorrer dos trabalhos de preparação do Conselho Nacional Plenário, sente-se a esperança de se poder materializar mais um passo na construção de um Movimento Escutista com um novo valor educativo acrescentado, abrindo portas aos jovens adultos para, também eles, terem o direito de participar na construção da cidade, como diria António Sérgio.

É a convicção, de toda uma geração, que, paulatinamente, preparou este percurso, que no próximo dia 20 de maio, três dias antes do Escutismo Católico Português celebrar o seu 95º aniversário, o órgão máximo do Corpo Nacional de Escutas atribuirá aos caminheiros o direito, leia-se a responsabilidade, de serem portadores de capacidade eleitoral ativa em todos os níveis da associação. Esta será a melhor prenda que poderemos dar ao Escutismo neste seu aniversário, estabelecendo um marco que merecerá três vivas de Baden-Powell, fundador mundial, e a bênção de D. Manuel Vieira de Matos, o nosso arcebispo fundador.

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