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O cão, o osso e o leque

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O cão, o osso e o leque

Voz aos Escritores

2021-10-15 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Era só um autógrafo numa fotografia, mas ficou-me na memória a referência ao "cão filósofo" que "abocanha o melhor osso". Eu sei que Eça também louvou o "cão lírico que ladra à lua", mas tenho na minha que "cão filósofo" remete para os cínicos, para os que sugerem malevolamente muito mais do que proferem. O objetivo, é claro, consiste em abocanhar o melhor osso, seja ele metaforicamente o que for. Ah, Fernando, Fernando, tu que és Pessoa, porque chamas ao Homem pobre vaidade de carne e osso? Que vaidade têm os ossos de Camões, poeta incomparável, se andam por aí em campa rasa, ignota e triste, sem legítima redenção?
É verdade que ossos são objetos físicos, suporte de alguns corpos, mas não era talvez suposto andarem assim na pena dos nossos grandes vates. Como objetos, satisfaz vê-los nas igrejas, sejam de Faro ou Alcantarilha, ou talvez melhor em Évora. Está lá tudo, basta olhar e pensar. Como metáforas, metonímias ou outros símbolos gerais, adquirem os ossos muito maior capacidade expressiva, emotiva, claro, e não foi por acaso que o nosso grande Eça os escrevinhou.

Pela fotografia, não se percebe muito bem se o autor de «Os Maias» só tinha pele e osso, mas que parece mais magro do que o Ramalho Ortigão, lá isso parece. Aliás, segundo rezam as crónicas e algumas «Farpas», o Ramalho era osso bem duro de roer, e acompanhava muito bem Guerra Junqueiro. Talvez Antero e Sérgio sugerissem que são ossos do ofício, mas temos de convir que isto de farpar até ao osso, melhor, até ao tutano do osso, lembra as aves de rapina, os milhafres e os abutres.
Eu ponho-me no seu lugar, faço eventualmente de Antero, e provavelmente diria que já que me comem a carne, me roam, ou ratem, ou rilhem os ossos. Que isto de ser poeta e escritor em terra de rapinadores é como cavalgar em osso e a toda a brida. É que a coisa dói que se farta, e não somente entre as pernas.

Esqueci-me de dizer que a foto foi tirada no Palácio de Cristal, e ainda estou por saber se a noiva do Eça recebeu o leque. Sei, no entanto, que ando bem dorido dos ossos e bastante ossificado.
Bem me diz a minha Micas para abusar do ossobuco, que tem carnes e tutanos suculentos, para além dos temperos que até o Ramalho adorava, cheios de ervas aromáticas, azeites e vinhos alentejanos, e bem assim das celebérrimas malaguetas, daquelas que inflamam até um cubo de gelo.
A verdade é que eles autografaram o retrato, não sei se sobre linhas ossiânicas, perdão, oceânicas, que Ossian, poeta irlandês, não vem aqui à colação. Andando nisto, e porque estou perto da Figueira, vou até à praia do Osso da Baleia, cetáceo mágico, osso em que, não sei se estão lembrados, se sentou a criança febril da «Finisterra», do Carlos de Oliveira.
E pronto, fico finalmente feliz por imaginar a noiva do Eça sentada na areia a (afinal recebeu-o!) abanar languidamente o leve leque.

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