Correio do Minho

Braga,

'O Capacete do Rodrigo', por Filipa Miguel Dias

Antecedentes… (parte II)

Conta o Leitor

2010-07-09 às 06h00

Escritor

Quando o frio aperta e as casas se enchem de luzes, cores e promessas, é - supostamente - uma época de felicidade. É a época de Natal.

Mas mesmo quando há luzes, cores e promessas e quando é a época do Natal, pode haver, também, gritos, discussões e portas a bater com força.

Para o Rodrigo, era demasiado complicado compreender o que se passava no quarto ao lado. Preferia refugiar-se no que o fazia sorrir do que ter que entender um mundo do qual apenas ouvira falar.

- Sabes, Ursinho, ainda não sei para onde vou hoje... Daqui a pouquinho tempo, a mamã e o papá vão ficar zangados outra vez e eu ainda não decidi para onde ir! Já fui a tantos sítios... Ontem andei com os golfinhos, debaixo de água e tudo! No outro dia, era maquinista de um comboio que ia até à casa do Pai Natal! Podia apitar sempre que quisesse, Tu! Tu!

O Ursinho de peluche, na realidade, não demonstrava qualquer sinal de vida. Continuava com os seus olhos pretos e brilhantes estáticos tal como a sua boca feita de linha cor-de-rosa.

Mas para o Rodrigo, que era uma criança como qualquer outra, o Ursinho ouvia-o com atenção e expressava-se regularmente ao ouvir as suas aventuras gloriosas.

- E sabias que ontem estive na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva? Estava naquele sítio maravilhoso cheio de meninos e meninas pequeninos como eu, sabes? E milhões de livros com histórias e desenhos com montes de cores! E também tinha computadores, mas eu ainda não percebo muito disso...

Depois de ter contado ao seu fiel confidente as suas viagens incrédulas, Rodrigo apercebeu-se de que teria que viajar novamente...

- Ah! A mamã e o papá estão a zangar-se outra vez! Parece que vou ter que pôr o meu capacete de novo. Hoje... Vou à Lua! No fim, conto-te tudo amigo.

O Rodrigo pôs o seu capacete mágico azul-turquesa e não ouviu - ou fingiu não ouvir - mais nada.
Com o capacete colocado, não ouvia gritos, discussões ou portas a bater com força. Tudo era como ele sonhava. Podia estar em qualquer lugar do mundo com a ajuda de um simples capacete de plástico azul-turquesa num abrir e fechar de olhos.

Noutro destes dias em que o Rodrigo explorava reinos de fantasia com o seu capacete mágico, ouviu uma porta a bater com tanta força que até tremeu.

Já com o capacete na mão, saiu do seu quarto de criança e abriu a porta do quarto ao lado. Deparou-se com a sua mãe mais que aborrecida com alguma daquelas coisas e perguntou:

- O Papá?
- Foi lá fora, meu amor, vem já.
A porta que ouvira bater, tinha sido o seu pai ao sair de casa.
Continuou:
- Estás triste?
- São coisas chatas de adultos, não te preocupes, sim?
- Está bem, mamã. Mas não precisas de estar mais triste, eu vou pedir ao Pai Natal um capacete igual ao meu para ti.
- Ai sim? Para quê, meu amor?
- Para ires onde te apetecer quando estiveres triste por causa dessas “coisas de adultos”. Quando tu e o papá se zangam e falam alto, eu ponho o meu capacete e vou onde quiser, já conheci o Pai Natal e tudo!

A mão do pequeno Rodrigo ficou de tal maneira comovida que lhe escorreu uma lágrima quente pelo rosto. Olhou para o seu filhinho com cara de anjo e não teve palavras que superassem as dele, deu-lhe apenas um longo beijo de mãe na testa.

O Rodrigo, que não tem idade para perceber que às vezes se chora de felicidade, colocou-lhe o capacete.
Se calhar, a ingenuidade de uma criança é mais inteligente do que qualquer outra coisa, principalmente em época de Natal.




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