Correio do Minho

Braga, terça-feira

O cartão de cidadão e as eleições presidenciais

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2011-01-29 às 06h00

Paulo Monteiro

Antes de avançar mais na escrita da minha crónica de hoje deixem-me dizer que faço parte dos cerca de quatro milhões e meio (46,55%) de portugueses que no domingo passado foi votar.

Exerci, por isso, o meu dever cívico; uma ‘arma’ que não desprezo e que a democracia me deu, depois de uma ditadura, de que me lembro bem apesar de ser... jovem.

Sempre achei que o não votar (abstenção) não é nenhuma forma de mostrar descontentamento pela política do país, mas sim um ‘laissez-passer’ (deixai passar) e um não ligar mesmo nada. Tudo porque, se estamos contra alguma coisa, ou votamos num candidato contrário ao que está no poder ou, então, mostramos o nosso descontentamento votando em branco.

Mas, adiante...
Sou um daqueles portugueses que recentemente teve de trocar o bilhete de identidade pelo cartão de cidadão. Como no domingo era dia de eleições, e como sabia que iria votar pela primeira vez na freguesia da minha residência, lembrei-me bem das palavras que me foram ditas na Loja do Cidadão depois de me furarem o meu cartão de eleitor, inutilizando-o: “o senhor depois vai ter que saber o seu número e onde vai votar porque o cartão de cidadão não tem esses elementos”.

Ou seja, o cartão até tem, só que nos locais de voto ainda não existem má-quinas para ler o meu cartão que faz parte do Simplex... tudo simples num só cartão, o que é uma grande mentira. É mentira por-que se não se conseguem ler os dados, é a mesma coisa que não existirem e é barraca porque esta nova política do cartão de cidadão deu uma grande barraca no dia das eleições...

Votei antes do almoço e tudo foi rápido porque... tinha num papelinho escrito o meu número de eleitor, caso contrário perderia muito mais tempo...
Mas também tive a sorte de na freguesia onde votei estar tudo concentrado na Junta de Freguesia. Se vivesse numa freguesia com vários locais de voto poderia chegar lá e indicarem-me outro local. Ou então, como aconteceu a muitos... eu votar no local A e a minha mulher votar no local B. E porquê? Tudo porque os dados têm como ponto de orientação o código postal... o que está errado!

Este episódio, por exemplo, aconteceu a Maria José Nogueira Pinto, que escreveu a história no ‘DN’ de quinta-feira, onde tanto ela como o marido ‘adquiriram’ o cartão de cidadão e deixaram de votar nos mesmos sítios onde votaram durante anos. Mas há outras histórias curiosas...

O presidente da Junta de Freguesia da Sé, António Sousa, revelou no programa ‘Debaixo d’Arcada’, da Rádio de Braga - Antena Minho que teve vários problemas na sua freguesia. Uma delas caricata... a mãe e o filho votavam no mesmo local; passaram a ter cartão de cidadão e a mãe continuou a votar na Sé mas o filho... passou para Maximinos. Tudo por viverem numa zona limítrofe da freguesia e do código postal dar números diferentes apesar de viveram na mesma rua...

Cá está, mais uma asneira na decisão.
Depois tivemos o problema do ‘apagão’... registando-se por todo o país problemas no acesso ao voto, com eleitores em longas filas, com cartão de cidadão na mão, para obterem o novo número de recenseamento, o que se agravou com as falhas nos serviços electrónicos, como o Portal do Cidadão e o serviço SMS 3838, disponibilizados para facilitar o processo mas... que não funcionou como devia funcionar.

O director-geral da Administração Interna, Paulo Machado (que entretanto, juntamente com o director-geral da Administração Eleitoral, Jorge Miguéis, pediu a demissão) avançou com uma explicação técnica para o sucedido no dia 23 de Janeiro afirmando que houve uma “sobrecarga de afluxos” aos sistemas de informação.

E foi mais longe, explicando de forma clara: “há um disparo que fez esta concentração. Não sendo informático trabalhei muitos anos com hidráulicos que têm para isto um nome, factor de carga. Que é que aconteceu? Nós estávamos preparados para ter uma chuva intensa e tivemos uma tromba d’água”... Pois é, mas deviam estar preparados para a ‘tromba d’água’ porque o mesmo já aconteceu em eleições anteriores, nomeadamente nos suportes digitais que davam os resultados eleitorais lembram-se? Lembram-se que ficaram todos entupidos e que ninguém tinha acesso aos dados?

Ou seja, com todos estes problemas, foram uns milhares de eleitores que deixaram de votar. Primeiro porque não tiveram paciência para ir para as filas para saber o número de eleitor; segundo porque mudaram-lhes o tradicional local de voto e descontentes não votaram; terceiro porque ficaram zangados por não serem informados atempadamente...

E, de facto, é verdade: para um Governo que gasta milhões em publicidade, podia ter havido o cuidado em fazer antes das eleições uma promoção forte sobre as alterações ou as condicionantes do cartão de cidadão...

É certo que quando se trocou o bilhete de identidade pelo cartão de cidadão muitas pessoas foram avisadas (mas outras não), mas só isso não chega e... depois deviam pensar que o português é mesmo português... deixa tudo para a última da hora...não se lembra da pequena publicidade que foi feita na altura do recenseamento eleitoral.

E agora faço a mesma pergunta feita pelo deputado comunista na comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais: e se a votação fosse tão renhida, mas tão renhida, que pudesse colocar em causa as eleições? Seria um grande problema. Mas ainda bem que não aconteceu e que estas eleições presidenciais seguiram a tradição e deram a reeleição ao actual presidente, logo à primeira volta e com maioria absoluta, porque assim não se coloca nenhuma dúvida.

Mas o candidato José Coelho que teve 189.080 votos (4,49%) e que ficou a 0,51% de receber a subvenção pública poderá ter razões de queixas?
Nunca se sabe...
O que se sabe é que estes casos foram agora entregues à Universidade do Minho e ao seu departamento de sistemas de informação para detectar os erros.
E mais: o ministro Rui Pereira anunciou que o mesmo departamento da UM vai acompanhar o próximo processo eleitoral para “garantir que nada disto se repete”.

Pois... era até aqui que eu queria chegar. Afinal o Minho é bom. Finalmente alguém lhe dá valor. E, então, à Universidade do Minho, em particular, devemos dar ainda mais valor. Por-quê? Na próxima crónica darei a resposta...
Bom fim-de-semana!

P.S. este artigo foi escrito antes da sessão parlamentar de ontem que acabou por ser... mais do mesmo.

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