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O casamento entre o «ChatGPT» e o retalho

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O casamento entre o «ChatGPT» e o retalho

Ideias

2023-05-08 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

Na atualidade são cada vez mais poderosas as arquiteturas dos nossos sistemas de computação. A retenção e o processamento de volumes de dados, cada vez maiores e variados, permitem que a inteligência artificial avance a uma velocidade incrivelmente rápida e até perigosa. Nesta esteira de pensamento, torna-se inevitável vis- lumbrar o casamento entre os modelos de aprendizagem automática, tais como o altamente difundido assistente virtual baseado em texto «ChatGPT», e o setor do retalho. O objetivo deste casamento é ambicioso, pois permite auxiliar os diversos atores da organização em processos e tarefas recorrentes, outrora bastante exigentes e demoradas.
Hoje senti a curiosidade de abrir este assistente pela primeira vez. Fi-lo apenas para testar a sua eficácia, não numa perspetiva semântico-linguística (deixo esse tema para os especialistas na matéria), mas como ferramenta de auxílio a tarefas diárias no retalho. Como caso de teste, decidi focar-me no processo de compra que envolve, naturalmente, diversas etapas. Entre elas destaco a identificação, aquisição e gestão de produtos e serviços, ingredientes essenciais para que organização possa operar de forma eficaz. Também a prévia seleção de fornecedores, a negociação de preços e contratos, e a posterior gestão do relacionamento entre compradores e fornecedores.
Imaginei, então, ser um comprador de leite, cuja função seria procurar e negociar preços com diversos fornecedores. Iniciei o teste com uma simples pergunta à plataforma: «Quais são os fornecedores de leite em Portugal?». Acredito que, por ser factual, o modelo facilmente me respondeu, listando-me as principais organizações portuguesas, com uma breve descrição de cada uma. Alertou-me, no entanto, para a possibilidade de existirem outras, nomeadamente diversos produtores locais, cooperativas regionais e lojas especializadas. Interessante este início de diálogo. Curioso, lancei-lhe uma segunda pergunta: «Qual é o fornecedor de leite mais barato em Portugal?». Obtive como resposta: «Desculpe, como modelo de linguagem, não tenho acesso a dados atualizados sobre os preços dos fornecedores de leite em Portugal». Pedi-lhe, então, para me providenciar dados desatualizados sobre os preços dos fornecedores de leite em Portugal. Mais uma vez respondeu-me de forma idêntica: «Como modelo de linguagem, não tenho acesso a preços desatualizados dos fornecedores de leite em Portugal» e acrescentou «para obter informações precisas, terá de entrar em contacto diretamente com os fornecedores da sua região». Para terminar rematei com um comentário, ao invés de uma pergunta: «Não gostei das tuas respostas, não tinham o detalhe de que necessitava». A máquina prosseguiu pedindo desculpa por não ser específica e me ter dado respostas genéricas. Recordando as minhas questões anteriores, fez ainda questão de esclarecer que «dado não possuir dados em tempo real sobre os preços do leite em Portugal, será aconselhável a consulta de fontes confiáveis...». Finalizei o diálogo com um «Até amanhã, vou até à praia» e obtive similar resposta com um breve alerta: «não se esqueça de aplicar protetor solar».
Depois deste breve, mas curioso diálogo com uma máquina, cujas respostas me foram sendo dadas em português do Brasil, estou mais convicto de que os modelos artificiais são e serão poderosas ferramentas auxiliares em quaisquer domínios. No entanto, convém lembrar que, não obstante terem uma aparente habilidade para dialogar e trazerem valor em certos domínios, estes assistentes não só estão isentos de qualquer emoção, como também de capacidade para distinguir o correto do incorreto, sendo necessária a presença de um aferidor humano para rever e comprovar algumas das suas respostas. Neste sentido, aconselho cautela na utilização deste tipo de instrumentos que são, muitas vezes, propulsores de informação incompleta, imprecisa ou até falsa, e também altamente dependentes de dados de treino. A ânsia de respostas rápidas, desprovidas de posicionamento crítico, e o facilitismo de acesso à informação poderão, na minha perspetiva, alimentar a preguiça e criar uma maquiavélica dependência na sua utilização. Sejamos seres pensantes, com ideias, valores e emoções que fintam a inteligência artificial e exaltam o seu espírito crítico e reflexivo.
*com JMS

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