Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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O circo chegou... e partiu!

Braga e a Rampa da Falperra

Conta o Leitor

2019-07-25 às 06h00

Escritor Escritor

Minervino Wanderley

Mar A população da pequenina cidade de Ipuaçu acordou diferente naquela manhã de quinta-feira. Todos se levantaram ao som de uma banda de música. “Que danado é isso?”, perguntava-se Valdeci, dono da Padaria Santa Helena, que já cuidava da produção dos pães. Como estava perto da eleição, o prefeito, Dr. Aristolino, já foi gritando para a mulher:
- Livramento, isso só pode ser coisa daquele sem-vergonha do Sales, que quer ganhar essa eleição de qualquer jeito. Deve ter contratado essa banda com dinheiro de Caixa 2, que veio do posto de gasolina de Marcelo e do açougue de João Batista! Bando de traidores! – esbravejou.
A turma que gostava de beber e que já esperava ansiosa a abertura do único bar da cidade, o Azul da Cor do Mar, ficou parada, olhando uns para os outros, achando que poderia ser o começo de um “delirium tremens” coletivo. Mas, como perceberam que todos estavam vendo a banda passar tocando coisas de amor, eles se acalmaram. E, para a felicidade deles, o dono do boteco, Zequinha, já estava providenciando a liberação das portas.
Da janela do cabaré “Stop”, Marlene ficou pensando que a banda tocava pra ela. Não tinha descolado ninguém na noite anterior e, por isso, acordara tão cedo. O gerente da agência do banco, seu Otávio, sério como sempre, parou de pensar em dinheiro para ver a banda passar. Laíse, que estava apaixonada, também parou com os sonhos para ver a banda passar. Até Célia, que era considerada a pessoa mais antipática da cidade, esboçou um sorriso ao ver a banda passar.
Mas essa banda tinha outro objetivo. Era para avisar que o circo estava chegando à cidade. Primeiro, vieram os palhaços que, com pernas de pau e roupas coloridas, fizeram a alegria da criançada. Depois as dançarinas, em trajes minúsculos, levaram a turma do bar a pensar de novo que era alucinação. Chico “Tremendão” – apelido em homenagem ao seu tremor matinal - pediu logo outra dose para garantir que estava “normal”.
Os trapezistas, fortes, faziam suspirar as mulheres que agora se debruçavam nas janelas. Os elefantes impressionavam pelo tamanho. A mulher barbada foi um sucesso. Em seguida, as jaulas com os animais ferozes apareceram, fazendo com que as mães já gritassem para que os meninos não chegassem perto. Dentro de uma das jaulas, estava o domador, um sujeito ainda novo, parrudo, loiro, e com um chicote na mão. Aquela visão quase nórdica mexeu com a imaginação das meninas e fez com que elas desejassem estar dentro daquela prisão ambulante. Por fim, o apresentador que, com um megafone, alardeava, num “portunhol” perfeito, que “El Gran Circo das Américas” estrearia no sábado à tarde.
Alheia a toda essa festa, Samira, filha do dono da loja de tecidos, assistia à novidade sentada no batente da sua casa. Impassível, nada mexia com ela. Nos seus dezoito anos, nunca tinha namorado ninguém. Era linda, mas sua timidez impedia que qualquer pretendente se aproximasse dela. Porém, quando viu o tal domador de leões, ficou encantada. Seus olhos brilharam e, diante dessa aparição, Samira sentiu um calor até então desconhecido. “Ave Maria!”, disse ela junto com um suspiro.
A partir daí a rotina dela mudou. Passou a ir todos os dias ao local no qual o circo se instalara. Mas era só para ver o domador. Ficava horas só olhando ele treinar os animais. Estava hipnotizada com a beleza e a coragem do rapaz dos cabelos dourados. Ele já havia percebido sua constante presença e soltava uns olhares que faziam o coração de Samira descompassar. Com o passar dos dias eles se aproximaram. Conversaram e ele falou um pouco da sua vida.
Disse que a família era da Suécia e que estava no circo desde pequeno. “Já dei a volta ao mundo duas vezes.”, gabava-se, enquanto pensava na sua certidão de nascimento, que mostrava que ele tinha nascido em Quixeramobim, no estado do Ceará. Mas aquilo faz parte da magia que envolve um circo.
Samira apaixonou-se por Erick, o domador de leões e tigres. Suas noites agora eram dedicadas a ele. Como todo começo de namoro, primeiro foram beijos, abraços e carícias. Ele contou histórias das suas andanças e ela viajou junto com ele através desse mundo mágico. Depois, o desejo chegou sem pedir licença e ele levou-a para seu vagão. Ficaram mais à vontade trancados. Ambos sabiam que era apenas uma questão de tempo para a consumação. Numa noite, entre beijos e apertos, Samira sentiu vontade de largar aquele povoado e seguir com o circo em busca desse mundo que Erick tão bem descrevia. Ela indagou se um dia poderia trilhar essa carreira. Ele alisou seu lindo rosto e disse:
- Vou conversar com Hilda, nossa melhor dançarina. Ela vai lhe ensinar os segredos da dança e você fará parte do nosso “staff”. – Samira ficou exultante. Sua vida começava a ganhar sentido. Resolveu dar prosseguimento aos seus planos. Sabia que ele a desejava e usaria seus atributos para tê-lo nas mãos. E assim o fez.
Numa bela e ensolarada manhã, Samira sentiu-se mais ousada. Passou o dia com o pensamento voltado para o circo. “Caso com ele, serei uma das dançarinas e viverei a vida!”, imaginou. Estava decidida. Quando a noite chegou, tomou um demorado banho. Depilou-se e fez um desenho de um coração com seus pelos. Preparou-se com suas melhores roupas. Colocou uma minúscula calcinha de renda branca e o sutien vermelho, também rendado, e foi ao encontro da sua paixão.
Quando chegou ao vagão, ele a esperava. Sem palavras, beijaram-se com o desejo de uma primeira vez. Depois, com a habilidade característica dos amantes, Erick tirou lentamente cada peça de roupa dela. Deixou-a só com a meia branca, a mesma que ela usava para ir ao colégio. Estava linda! Ele, mesmo com suas “voltas pelo mundo”, nunca tinha visto coisa mais graciosa. O desenho do coração quase lhe causara um efeito alucinante. Soprou, com a boca quase colada, a suave penugem das coxas alvas e durinhas de Samira.
Nessa noite, Samira conheceu um homem pela primeira vez. A timidez era somente falta do homem certo, nada mais. A sua desenvoltura deixava claro isso. Estava no sangue libanês que herdara do pai. Deu-lhe de volta o carinho recebido. Beijou cada detalhe do corpo dele, demorando-se naquele pedaço que sobrava das suas duas mãos e que tanto tirava seu sono. Então ele a possuiu. Ela sorriu num misto de prazer e de vitória. Erick e o mundo mágico agora lhe pertenciam.
Já fazia três meses que o circo estava em Ipuaçu e o público, na falta de outra diversão, mantinha os lugares todos ocupados. Em paralelo, Samira praticava a dança com Hilda e, à noite, entregava-se de corpo e alma a Erick. Os sonhos tomavam cada vez mais conta dos pensamentos de Samira. Já Erick, acostumado com as aventuras, começava a se entediar de Samira. Começou a evitá-la, ora dizendo que um leão estava doente, ora alegando que tinha que fazer novos treinamentos nos animais. Samira acreditava. Estava obcecada pelo novo mundo do qual, de acordo com sua imaginação, ela faria parte.
Então, numa segunda-feira, Samira resolveu quebrar a rotina que Erick havia pedido que ela cumprisse. “Por razões do seu trabalho”, ele justificou. Assim, ela só deveria ir lá às terças e sextas-feiras. Apaixonada e acreditando que o amor que ele sentia por ela seria suficiente para que pudesse romper essa regra, ela foi direto ao local dos seus encontros.
Estranhou ao ouvir barulho e movimento no trailer. Então, como estava habituada, entrou sem qualquer aviso. O mundo de Samira desabou! A imagem que apareceu aos seus olhos deixou-a pálida e uma sensação de desmaio tomou conta dela. Na cama onde ela tinha entregado seu corpo, seu coração e sua vida a Erick, estavam abraçados nus e como se fossem um só, ele, seu Erick e Hilda, sua professora. Ela não sabia o que fazer. Erick levantou-se e falou, de uma forma grosseira e que ela nunca imaginara ouvir daquela boca, que ela fosse embora para sua casa, que aquilo tinha sido apena uma aventura. “Nós pertencemos a um mundo que não lhe cabe”, disparou sem a menor compaixão.
Ela voltou para casa com duas tristezas: o desencanto do amor e a perda do mundo mágico, que, agora, viu que jamais chegaria a ele. Entrou na casa e cambaleando foi para a cama. Ainda não acreditava no que estava acontecendo. Adormeceu em meio a um rio de lágrimas de decepção e dor na alma.
Ficou dois dias sem sair do quarto, sob a alegação de que estava com uma forte gripe. Tomou uns remédios para dormir e passou mais dois dias inerte. Quando tomou coragem, foi até a porta da rua e voltou seu olhar para o circo. Não havia mais nada lá. Ele havia partido no silêncio da noite. Então ela sentou-se naquele mesmo batente e pensou:
- Um dia, virá outro circo. – em seguida, passou a mão na barriga e sussurrou para a semente que lá se instalara:
- Você crescerá e verá como é lindo ver a banda passar.

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