Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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O colecionador

O primeiro Homem era português

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Conta o Leitor

2021-08-04 às 06h00

Escritor Escritor

Carlos Azevedo

António “Toni” para os amigos, é um apaixonado por automóveis, mas não tem nenhum. O seu sonho é um dia poder comprar um automóvel, mas não um automóvel qualquer, tem que ser um topo de gama, um daqueles que quando se acelera não se tem tempo para olhar para o velocímetro.
Toni desde miúdo que gosta de carros, o pai quando ele tinha oito anos, trabalhava como camionista de longo curso na alfandega do Porto, por vezes transportava brinquedos, os fornecedores ofereciam-lhe alguns e era uma alegria quando o pai chegava a casa, trazendo brinquedos para ele e para o irmão mais novo, entre esses, os preferidos eram sem dúvida, os automóveis.
Aos poucos ia colecionando-os, brincava com eles realizando corridas, às vezes cortava os tejadilhos e transformava-os em cabriolets, nos dias de sol ia para o quintal brincar, construía estradas, garagens, oficinas e stands ao ar livre, divertia-se imaginando ser o dono desses negócios. Ele gostava de brincar sozinho, mas por vezes os amigos vinham brincar com ele, traziam os carros deles e faziam trocas sonhando com grandes máquinas, comprometendo-se um dia ter um carro a sério.
Durante uma fase da sua vida, a paixão pelos carros “esmoreceu”, mas não desapareceu, já não era um menino para “brincar” com carrinhos. O tempo foi passando, Toni era agora um homem adulto, certo dia ao passar numa loja de venda de material de colecionismo, deparou-se com uma miniatura de um automóvel, sim uma miniatura, porque “carrinhos” é para brincar, miniaturas são réplicas à escala do modelo real. Ao ver aquela miniatura em particular, acendeu a sua paixão pelos automóveis e num impulso entrou na loja pedindo ao vendedor autorização para ver e pegar no modelo em questão. Era lindo, era a primeira vez após tantos anos, que pegava numa miniatura como aquela. Os seus olhos cintilavam, o seu coração palpitava mais depressa, era uma sensação maravilhosa, poder apreciar aquele modelo em pormenor que viria a ser um ícone da indústria automóvel e que levaria a partir dessa época, outras marcas a criarem veículos com as caraterísticas daquele modelo. Após uma minúcia vista de olhos à miniatura, pousou-a com cuidado quase com medo de a partir, tomou uma resolução, tinha que levar aquela miniatura. Toni dirigiu-se ao vendedor, gaguejando, perguntou:
- Qual o valor?
O vendedor solicito respondeu:
- Este modelo é novidade, é um modelo da Ferrari mais precisamente do Ferrari F40, à escala 1/18, como pode verificar todas as peças são móveis, portas, mala, capô, rodas e direção, é um modelo com bastantes pormenores. O valor é de 3500$00 (três mil e quinhentos escudos, atualmente 17,50€).
Toni engoliu em seco. Pensou que a miniatura era um pouco cara para o seu orçamento, mas era espetacular e com uma voz firme disse:
- Vou levá-la.
Enquanto o vendedor fazia o embrulho, pegou na carteira verificando que, após pagar a miniatura ia ficar sem dinheiro, mas ia valer a pena.
Assim a partir daquele momento, Toni foi apanhado pela paixão (que estava adormecida) do colecionismo de miniaturas. Com o passar do tempo a sua coleção foi aumentando e o sonho de ter um daqueles veículos (supercarros) também, começou a jogar no totoloto/euromilhões a ver se um dia a sorte lhe batia à porta.
Todos os dias era um regalo ver Toni a apreciar a sua coleção de miniaturas que ia crescendo a olhos vistos, mas sentia uma amargura por na realidade não ter um veiculo a sério.
Os amigos diziam-lhe que o dinheiro que ele gastava nos “carrinhos” davam para comprar um carro a sério, que ele já não tinha idade para andar a sonhar com “carrinhos”, de brincar. Mas Toni não lhes ligava, continuava a comprar as miniaturas e a sonhar um dia em ter um à escala 1/1.
Numa bela manhã de sexta-feira, acordou com boa disposição, sentia que aquele dia ia ser diferente, quase premeditado, como se algo importante estivesse para acontecer.
Chegou a noite, Toni estava distraído no sofá a limpar uma das suas miniaturas, a televisão estava ligada com o som baixo, quando uma música conhecida lhe despertou a atenção, era a música de abertura que anunciava a transmissão em direto da extração dos números do euromilhões, sem saber porquê Toni teve a necessidade de ir a correr buscar os boletins que tinha jogado naquela semana, e a ansiedade instalou-se no seu corpo. Ali com os olhos bem abertos e ouvidos à escuta começou o sorteio. A primeira bola saiu, e o número lá estava no boletim, segunda bola, segundo número, mais um, já eram dois, Toni começou a ficar nervoso, terceira bola, terceiro número, quarto, quinto, sexto, não queria acreditar no que estava a acontecer, faltava os dois números da sorte para completar o primeiro prémio, sai a primeira bola, e de seguida a segunda, Toni ficou ali pregado ao sofá sem um movimento, sem uma palavra, à espera que a locutora repetisse os números da sorte, após a confirmação Toni ficou incrédulo a olhar simultaneamente para a televisão e para o boletim. Não queria acreditar, ali estava ele com o boletim premiado nas mãos, acabava de se tornar num milionário, ele um sonhador, poderia agora tornar os seus sonhos em realidade.
Saltou de alegria, sem reparar na miniatura que estava no colo, esta caiu ao chão espatifando-se, olhou para ela e encolheu os ombros, agora podia comprar as que quisesse, só que aquela miniatura era a preferida dele, tinha sido com ela que iniciara a sua fantástica coleção, aquela, foi a primeira de muitas, o Ferrari F40.
Estava tão contente, que começou a pensar o que fazer com o dinheiro que ia receber, e se fosse o único totalista ia ser uns milhões largos. Pegou num caderno e um lápis começou a delinear o que fazer com o dinheiro, a primeira coisa que lhe saltou à cabeça era realizar um dos seus sonhos preferidos, este seria prioritário, comprar um carro, mas não um carro qualquer, seria nem mais nem menos um Ferrari, o Ferrari que sempre lhe despertou interesse, primeiro como miniatura agora seria a sério. Estava decidido ia comprar um Ferrari F40, nem que fosse usado, pois sabia que seria muito difícil adquirir um de outra forma.
Os dias foram passando, Toni recebeu os milhões, tinha sido o único totalista, as negociações com o representante da Ferrari em Portugal no Porto, estava no bom caminho. Tirou a carta no espaço de tempo em que aguardava a notícia da chegada do carro. Finalmente, certo dia, após meses de espera angustiante, recebe um telefonema do representante da Ferrari a dizer que tinha encontrado um F40 em muito bom estado, como novo, este já se encontrava no stand. Toni, agora Sr. António, dirigiu-se ao Porto, com o coração acelerado cheio de espectativa para ver o seu novo carro, e que carro, logo um Ferrari F40.
Fechou o negócio, estava tudo preparado para Toni sair dali com o seu novo bólide, sentia-se no céu ao volante daquele carro que faria parte da sua coleção de “miniaturas”, só que este, era à escala 1/1.
Com calma e cuidado saiu do stand, todos olhavam para ele, Toni o homem sonhador, com um “sonho” nas mãos, dirigiu-se para a autoestrada Porto-Braga.
Era um regalo, aquele carro andava que se fartava, fazia as retas com uma velocidade alucinante, Toni não cabia em si de alegria e êxtase, cada ultrapassagem era feita no mínimo de tempo possível, o carro devorava quilómetros como se fossem metros, o velocímetro raramente baixava dos 150 km/hora. Então o impossível aconteceu, numa ultrapassagem fácil e rápida, outro veiculo à frente meteu-se na faixa da esquerda, e a colisão foi inevitável, Toni nada podia fazer. Com os olhos arregalados, Toni agarrou-se ao volante e o embate foi de tal ordem que ele voou vários metros e caiu às cambalhotas.
Toni levantou-se da cama a transpirar por todos os poros do seu corpo, ainda incrédulo por se encontrar vivo. Apertou a cabeça com ambas as mãos, tudo não passou de um sonho, de um pesadelo.

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