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O combate também passa por nós

Convertidas – A Solenidade do Mês de Maria (1913)

O combate também passa por nós

Ideias

2020-03-24 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Vivenciei, há cerca de 45 anos, alguns, poucos, dias sob a declaração de estado de sítio. Nos dias de hoje experimento novamente uma situação perfeitamente anómala, desta vez com o país a cumprir os ditames do estado de emergência decretado pelo Presidente da República. Estamos a falar, em qualquer dos casos, de situações excepcionais mas que não têm, felizmente para os portugueses, qualquer similitude para além da sua anormalidade.

No curto período que decorreu entre 25 de Novembro e 2 de Dezembro de 1975, tempo em que vigorou o estado de sítio, o que esteve em causa foram questões políticas que originaram um perigoso confronto entre militares e, naturalmente, o envolvimento dos partidos e da população. Tratou-se, portanto, de uma medida de excepção assumida pelo Presidente da República de então, General Costa Gomes, numa altura em que ainda não existia Constituição da República, e que tinha em vista evitar tumultos e, dessa forma, alcançar mais rapidamente a tão desejada quão necessária normalização democrática.

Bem diferentes são os tempos que hoje atravessamos, desde logo porque vivemos num regime democrático perfeitamente estabilizado, o que faz toda a diferença. Depois, porque o estado de emergência agora decretado por Marcelo Rebelo de Sousa é uma medida que pretende facultar ao governo todas as condições para poder actuar perante a pandemia vírica que, como seria expectável, também atingiu o nosso país. Finalmente, e não menos relevante, porque agora os portugueses manifestaram grande unidade e sentido cívico, o que não sucedia no final de 1975.
Claro que hoje a contenda é diferente, bastante mais complexa e difícil, porquanto se trata de uma luta feroz, de vida ou de morte, contra um poderoso inimigo comum que tem a seu favor o facto de ser invisível e de ainda não existirem antídotos para a sua total eliminação.

Hoje o medo assentou arraiais na sociedade portuguesa. É o temor de que o vírus nos atinja mas também a preocupação e receio pela saúde dos nossos familiares mais próximos.
Hoje estamos impedidos de socializar, confinados a espaços que nem sempre oferecem as melhores condições para “prender” em permanência crianças que, por natureza e por hábito, não se acostumam facilmente às novas amarras. Estamos impossibilitados de sair, de gozar os dias de sol que esta Primavera envergonhada nos tem facultado. É custoso, é esgotante, mas é um esforço que vai valer a pena. Como alguém fazia notar há dias nas redes sociais, aos nossos avós foi pedido que fossem combater, que participassem na guerra; a nós pedem-nos uma atitude com muito menor perigosidade e bastante mais confortável, que é a de ficarmos em casa.

Acontece que o isolamento social é a atitude mais responsável e aquela que melhor pode ajudar os extraordinários profissionais de saúde que têm estado a lutar até à exaustão na batalha desigual que travam diariamente para combater o vírus assassino. Eles e elas são os grandes heróis. Eles e elas sacrificam-se denodadamente e quase em regime de permanência, com frequência em prejuízo próprio e das suas famílias, para servir uma população que acredita nas enormes virtualidades do nosso Sistema Nacional de Saúde.

É também por essa razão, porque há a imperiosa necessidade de espalmar a curva epidemiológica, para evitar a ruptura do SNS, que o estado de emergência tem mesmo de ser tomado a sério, tem de ser assumido. É forçoso não se facilitar, não haver desleixos, porque neste caso a incúria pode revelar-se fatal.
São tempos conturbados, é certo, mas deles podem retirar-se grandes lições, relevantes ensinamentos para o nosso quotidiano futuro. E, neste particular, as questões primárias, como a heterogeneização das boas práticas higiénicas, constituem, a par das normas mais benignas do comportamento humano, designadamente ao nível da alimentação, factores determinantes para enfrentar em melhores condições eventuais pandemias que possam surgir.

Estou convicto que as medidas de isolamento social agora impostas, e que na generalidade têm sido respeitadas pela esmagadora maioria da população, a qual aliás já as tinha assumido voluntariamente, se vão revelar determinantes para a eficácia do combate à pandemia. Nessa medida, será um sacrifício que valerá a pena como, de resto, os resultados dos últimos dias parecem deixar antever.
Num excelente e oportuno texto publicado esta semana na revista do Expresso, o poeta e cardeal português José Tolentino Mendonça manifesta a esperança de que “a quarentena não seja só um violento recurso forçado, do qual vemos apenas os aspetos negativos”. E acrescenta que “este pode ser o momento para irmos ao encontro daquilo que perdemos; daquilo que deixamos sistematicamente por dizer; daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz nem vez; daquela gratuitidade reprimida que podemos agora saborear e exercer”. É bem certo, como nota o purpurado na sua crónica, que quando “confinados a um isolamento compreendemos talvez melhor o que significa ser – e ser de forma radical – uma comunidade.” E a maior virtualidade dessa convicção será, porventura, a certeza de que “a nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas: todos estamos nas mãos uns dos outros, todos experimentamos como é vital esta interdependência.”

* O autor escreve em total desacordo e intencional desrespeito pelo dito Acordo Ortográfico, declarando-se objector do mesmo.

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