Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O conceito português de esmola

Pecado Original

Conta o Leitor

2011-06-12 às 06h00

Leitor

Há alguns dias atrás, regressava a casa depois de um belo passeio, com muito vento e um sol brando, quando parei propositadamente numa das belas cidades do Minho, para tirar algumas fotografias a uma igreja dessa cidade. Passei, olhei, gostei do ângulo, estacionei o carro, peguei na máquina digital e saí.

Quando caminhava de olhos postos nela, procurando esse ângulo tão desejado, mal reparei num rapazinho magro e baixo, de olhar avaliador que me olhava de forma oblíqua. Pedia esmola. Eu respondi rapidamente que não tinha nada comigo. E era verdade. Ele repara nisso. Atrás dele, uma senhora ainda jovem, de cabelo desgrenhado, empurrava um carrinho de bebé, cheio de roupa enrolada e atada em trouxas e, no cimo daqueles rolos, uma criança chorava amargamente.

Fiquei impressionadíssima, mas continuei o meu caminho seduzida por aquele ângulo.
Quando regressei, que ficara para trás, falava com dois homens cuja estatura fazia três a quatro vezes a dele. Impressionou-me aquele menino-homem de olhar fixo e modos desembaraçados, sem medo, replicando, de forma inteligente, àqueles homens que o ouviam e o olhavam divertidos. A mãe parara o carrinho atafulhado e tentava acalmar a criança mais pequena, que parecia seriamente incomodada com algo. Tocou-me a ternura daquela mãe, que conseguia, por momentos, acalmá-lo.

De repente, dando pela falta do mais velho, voltou a trás à pro-cura do mais velho, que desaparecera do horizonte da sua vista. Chamou-o impacientemente. O rapaz largou lentamente a esquina, com os seus calções e a sua camisola de manga curta demasiado largos esvoaçavam ao vento daquele final da tarde, respondendo ao apelo maternal. Mas algo parecia prendê-lo àquela conversa e o fez voltar para trás…

A criança mais pequena, retomara o choro convulsivo, o que fez a mãe recuar. Já dentro do carro, eu pedi à minha filha mais velha a minha mala, que se encontrava no banco traseiro, e que contasse o dinheiro da carteira, enquanto eu arrumava cuidadosamente a máquina nas duas bolsas protectoras. Olhei novamente em frente. A mãe esperava impacientemente o mais velho, que regressava no seu passo seguro e confiante.

O rapaz, de olhar arguto, já pusera os olhos num casal ainda novo, que, ao dar-se conta dele, pôs os olhos no chão, ignorando-o. Saí do carro e dirigi-me com dois dos quatro euros que tinha na carteira, e dei à senhora um para o mais pequeno e o outro dei-o ao mais velho, cujos bolsos tilintavam de moedas de um, dois, cinco… Arrependi-me, pela primeira vez, do meu desprendimento ao dinheiro, que me fazia andar sempre com o essencial na carteira.
Fiz-lhes algumas perguntas sobre a vida deles às quais a mãe respondia com um português distorcido próprio dos estrangeiros.

Pouco entendi. Percebi que a criança mais pequena se queixava de dor de ouvidos e que viviam nas imediações do hospital daquela cidade. O rapazito, manejando muito melhor a nossa língua, tentava colmatar as falhas, que eram muitas, do discurso da mãe. Desejei-lhes felicidades, esperando que a sua situação possa melhorar o mais rapidamente possível.
Antes de voltar costas, recomendei ao mais velho que continuasse a olhar pela mãe e o irmão. Os olhos fixos e destemidos prometeram-me isso. Eles agradeceram mais a atenção do que a parca esmola que lhes dera, e que deveria cobrir uma magra parcela das suas necessidades mais básicas.

Fiz as contas de cabeça, pensando em voz alta. Daria, pelo menos, para dois litros de leite, do mais barato, e algum pão. Como eu gostaria de ter feito mais! Como eu gostaria de ter uma varinha de condão para modificar estas situações! De momento, dada a conjuntura económica que nos faz andar com a corda ao pescoço, não é possível… mas, quem sabe, talvez um dia! Por enquanto, vai-se tentando remediar uma situação ou outra, na medida do possível...


Fátima Nascimento

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