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O Congresso de Rio

A saia comprida

Ideias

2018-02-19 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Em contexto de eleições diretas, os congressos partidários transformaram-se em pseudoacontecimentos, ou seja, acontecimentos pensados para uma intensa cobertura mediática. São momentos aclamativos do líder eleito, que multiplicam pelos diversos media noticiosos peças de ângulos positivos. Acontece que este 37º Congresso do PSD que ontem terminou em Lisboa não se caracterizou por isso. E foram os próprios militantes que promoveram os episódios dissonantes que acabaram por marcar este encontro.
Antes do arranque deste Congresso, já vários sociais-democratas se haviam multiplicado em avisos. O ex-líder da distrital do PSD de Lisboa Miguel Pinto Luz escreveu uma carta-aberta a Rio que mais parecia um manifesto da oposição; o presidente do Governo Regional da Madeira deixou uma série de recados em entrevista à TSF; Hugo Soares, na despedida da liderança da bancada parlamentar, lembrou aos jornalistas o legado de Pedro Passos Coelho que considerou um dos melhores primeiro-ministros da História de Portugal.

No sábado, Carlos Abreu Amorim dava uma entrevista ao Sol de duas páginas, afirmando que, se não ganhar as eleições (legislativas), Rio terá muita dificuldade em manter-se; e Maria Luís Albuquerque, em entrevista de quatro páginas ao Dinheiro Vivo, lançava uma pergunta retórica quando confrontada com a possibilidade de se candidatar à presidência do PSD: tenho 50 anos, porque não?. No entanto, a maior surpresa chegaria com um enorme estrondo da parte da tarde ao Centro de Congressos de Lisboa. Aí, Luís Montenegro anunciou que irá deixar o Parlamento em abril: Desta vez decidi não, se algum dia disser sim, já sabem, não vou pedir licença a ninguém. Em frente ao ainda deputado, sentado, Rui Rio não conseguiu disfarçar o incómodo. O ex-líder parlamentar não teve meias-palavras: Não fui eu que estive dez anos à espera de disputar a liderança do PSD entre desejos alternantes de ser primeiro-ministro e presidente da câmara. Todos percebiam de quem estava a falar e a crítica não poderia ser mais contundente. Sinalizava-se ali o próximo candidato à liderança do PSD. Mais um.

Já de madrugada, Santana Lopes haveria, antes de todos irem dormir, deixar um abraço do urso a Rui Rio. Apelou à união de todos e chamou cada um para o combate ao lado do novo Presidente. Ficaria por perceber a entrevista que dera uma semana antes ao Expresso onde afirmara o seguinte: há legitimidade para discordar e não renuncio a ela.
Fazendo de conta que é indiferente às divergências que entoam por todo o lado, Rio lá anunciou a sua Comissão Política. E eis que as escolhas reabrem outras polémicas. Distritais importantes, como a do Porto, dizem não se reverem em tal opção, mas foi a escolha da vice-presidente Elina Fraga que suscitou maiores críticas.

A ex-ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz mostrou-se chocada com o destaque dado à ex-bastonária da Ordem dos Advogados, a mesma que, em setembro de 2014, apresentara uma queixa-crime por atentado ao Estado de Direito contra todos os membros do Governo de Passos e Portas que estiveram na reunião do Conselho de Ministros em que foi aprovado o mapa judiciário. Ontem, em entrevista à RTP3, Fraga não demonstrou outra leitura daquilo que haviam sido as políticas da justiça do Governo de Passos Coelho. Minutos depois, quando subiu ao palco para tomar o seu lugar na Comissão Política, muitos militantes apuparam-na ostensivamente. A agora vice-presidente sorriu, mas o momento constituiu mais um incómodo a somar a vários que se acumularam nos últimos três dias naquele espaço.
A partir de agora, o PSD tem um novo líder e uma equipa renovada. Não terá vida fácil. No plano interno, Rui Rio tem a vantagem de ter já identificado quem está nas trincheiras sociais democratas para o abater. Fora do partido, tem um Governo socialista sustentado por uma maioria de esquerda que é difícil combater. Em Belém, Rio talvez não conte propriamente com um aliado...

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