Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Conhecido Desconhecido, por Sílvia Rodrigues

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2011-07-09 às 06h00

Escritor

Não sei se alguma vez vos terá acontecido, a mim já.

Devia ter os meu vinte e picos anos, ia eu descansada da vida num autocarro pachorrento quando, às páginas tantas, entra um senhor que exclamou um olá efusivo e caloroso. Ainda olhei para trás para ver alguma reacção dos outros utentes, mas continuaram esfingicamente iguais. Encarei de novo o sujeito. O gigante olá era mesmo para mim, pois a boca, os olhos, e o resto direccionavam-se claramente no meu eu. O senhor trintão, abigodado e algo rosado, sentou-se jovialmente à minha beira. Diante de tanto alegria, balbucio um tímido olá.
- Então, como estás?
E agora? Eu não estava a reconhecer a criatura mas accionei logo o meu computador cerebral, numa consulta supersónica aos meus ficheiros visuais. Algum parente afastado? Daqueles que nos conhecem desde catraia? Será uma nova maneira de meter conversa?
Enquanto isso, atiro:
- Está tudo bem.
- Há quanto tempo eu não te vejo por aqui!
Elimino a hipótese do parentesco, pois as minhas raízes são todas de Vieira do Minho e eu nunca te vi por aqui nem em sítio nenhum. Mas as palavras saem cautelosas:
- Pois é, acontece.
- Então conta lá, o que tens feito?
- O de sempre.
Uma resposta curta e limpinha, não compromete ninguém.
Puxa, eu devo mesmo conhecer o homem. Se tivesse havido um equívoco, já deveria estar desfeito, não? Terá sido um funcionário da escola?
- Os teus pais estão bons?
Risco a hipótese anterior. Desde quando os funcionários perguntam pelos pais?
- Estão bons.- E por educação arrisco - E lá em casa?
- Ah a Isabel está boa, e os meninos estão grandes.
- Ai sim, que bom.
- É o que se quer, não é? Trabalhas.
A hipótese do engate está descartada. Isabel, Isabel…não estou mesmo a ver… Imagino o indivíduo sem bigode, com óculos, mas nada e considero-me alguém com boa memória visual. Que situação tão hitchcoquiana! Como é que vou agora perguntar: “Desculpe lá, a conversa está boa, mas afinal quem é o senhor?” Continuo a jogar o jogo, à espera de pistas.
- Estou a trabalhar numa residencial. E você continua a trabalhar no mesmo sítio?
- Felizmente. Só devo sair de lá reformado.
Obrigada, fiquei a saber o mesmo. Será algum ex-trabalhador do meu pai? Não vou aguentar a máscara por muito mais tempo. Que situação…
- Olha, vou sair na próxima, felicidades e cumprimentos aos teus pais.
- Igualmente.
Saiu com toda a sua alegria e, nunca mais o vi desde aí. Ainda andei uma se-mana a pensar no caso, e depois encolhi os ombros para o episódio insólito, é o que sempre faço quando não consigo compreender o ilógico. Se me virem a rir sozinha é porque talvez esteja a pensar no conhecido desconhecido…

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