Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O contributo do Correio do Minho para a descoberta de um livro de 1577

Nunca é tarde para ser feliz!

Ideias

2018-05-27 às 06h00

Joaquim Gomes

Numa investigação em Ciências Sociais, as fontes primárias são das mais fidedignas, porque são apresentadas na sua forma original, tal como foram elaboradas e produzidas pelos seus autores. São exemplos, entre outros, a legislação, as atas ou os jornais que, depois de analisados pelos investigadores, são construídas as suas interpretações históricas.

Temos verificado, nas últimas décadas, um crescente uso da imprensa como fonte de investigação, até como recurso pedagógico, nas diferentes áreas disciplinares.

Entendo os jornais como uma importante fonte primária, que espelha uma época nas variadas vertentes. Para além disso, os textos são lidos e comentados por muitos leitores da época que, discordando, têm o poder de efetuar o contraditório (direito de resposta), repondo dessa forma alguma inverdade. Os jornais funcionam, por isso, como verdadeiras atas públicas, de uma época e de uma sociedade.

Neste contexto, quero aqui apresentar um exemplo concreto:
No dia 28 de maio de 2017 foi publicado no jornal Correio do Minho o texto A Livraria Municipal Bracarense Pereira Caldas onde foi referido que o Professor Pereira Caldas (célebre investigador e professor do Liceu de Braga, no século XIX) era possuidor de um espólio bibliográfico, considerado na época como um dos melhores de toda a Península Ibérica, ao nível das bibliotecas particulares. Era de tal forma importante que mereceu, inclusive, a visita a sua casa do próprio Imperador do Brasil, D. Pedro II, quando este se deslocou algumas horas a Braga, no dia 3 de março de 1872.

Sem familiares diretos vivos e sentindo-se sozinho, em 1886 Pereira Caldas propôs à consideração da Câmara Municipal de Braga a aquisição do seu espólio bibliográfico o que foi recusado. Desde então, a biblioteca particular foi perdendo o seu vasto acervo bibliográfico, acabando por ficar espalhado pela Biblioteca Pública de Braga, pela Biblioteca Martins Sarmento (Guimarães), Biblioteca Nacional e Biblioteca do Liceu Nacional de Braga. No entanto, muitos dos seus livros mais valiosos encontram-se ainda hoje em parte incerta.

Neste contexto, há dias foi-me reencaminhado pelo Correio do Minho uma mensagem, através do correio electrónico, de Rizio Bruno Sant'Ana (rbsantana@prefeitura.sp.gov.br) da Biblioteca Mário de Andrade, em S. Paulo, Brasil.
A Biblioteca Mário de Andrade é uma das principais instituições culturais brasileiras, detentora do segundo maior acervo bibliográfico do Brasil, só ficando atrás da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Nessa mensagem, que transcrevo, com a devida autorização, Rizio Bruno Sant'Ana refere que O Sr. Joaquim Gomes escreveu no ano passado uma interessante crônica sobre o Professor Pereira Caldas e a dispersão de sua biblioteca pessoal. Gostaria de informá-lo que um de seus livros veio parar na Biblioteca Pública de São Paulo, Brasil (a Biblioteca Mário de Andrade). Trata-se da obra \"Livro do Rosayro de Nossa Senhora\", de Nicolau Dias, numa edição rara de 1577. Este exemplar está na coleção do advogado Baptista Pereira, adquirida por nós em 1937.

O "Livro do Rosayro de Nossa Senhora, poderia ter sido oferecido pelo próprio Pereira Caldas ao último Imperador do Brasil, que fez questão de visitar a casa de Pereira Caldas, aquando da sua visita a Braga, ou poderia, também, ter sido adquirido pelo advogado Baptista Pereira. De qualquer forma, trata-se de uma edição rara de 1577 e de grande valor patrimonial.

Sendo o jornal Correio do Minho muito lido em países do continente americano, especialmente os EUA, o Canadá e, principalmente, o Brasil, este jornal acabou por prestar um serviço de grande valor à nossa cultura e à nossa sociedade. Se não fosse o texto neste jornal, alguém saberia o paradeiro do "Livro do Rosayro de Nossa Senhora, de 1577?

A partir deste texto, de imediato surgiu a possibilidade de outros livros de Pereira Caldas encontrarem-se na imponente Biblioteca Mário de Andrade, em S. Paulo. Contudo, num e-mail enviado por Rizio Bruno Sant'Ana, no dia 17 de maio de 2018, fui informado que Infelizmente, o Livro do Rosayro foi, até agora, o único identificado como tendo pertencido a Pereira Caldas (). Caso seja localizado um outro exemplar de Pereira Caldas, o manterei informado.

Esta é uma prova inequívoca como o Correio do Minho é lido com atenção no Brasil e como a Biblioteca Mário de Andrade, em S. Paulo, possui profissionais de grande dedicação, como é o caso de Rizio Bruno Sant'Ana.

Se existissem dúvidas quanto à importância da imprensa na investigação e na análise da sociedade e da história, aqui está um exemplo claro do seu indispensável contributo para as Ciências Sociais.

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