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O controverso experimento do Facebook

Beco sem saída

Ideias

2017-05-12 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Em janeiro de 2012 o Facebook levou a cabo um experimento psicológico. Durante cerca de uma semana, a empresa estadunidense manipulou chamados “agregadores de notícias” (news feeds) - que, entre outras coisas, nos permitem ter reunidos numa página todos os cabeçalhos dos nossos jornais e revistas preferidos, sem o trabalho de visitar os respetivos sítios na Internet - tipicamente conhecidos como RSS (o mais usado atualmente é o Really Simple Syndication 2.0, identificado por um ícone laranja com ondas wi-fi exibido aquando da existência de atualizações) de cerca de 700000 mil dos seus utilizadores.

Estes dispositivos tecnológicos, da categoria dos web bot - programas informáticos que realizam automaticamente tarefas rotineiras na Internet - estão constantemente a atualizar em páginas de pessoas no Facebook que os seus seguidores consultam, detalhes sobre o que vão diariamente fazendo, onde e com quem, incluindo nessas reportagens fotos e vídeos a atestá-lo. A empresa presidida por Mark Zuckerberg levou a cabo essa pesquisa para tentar saber em que medida eram os utilizadores desses “agregadores de notícias” afetados pelo que iam lendo e vendo.

Assim, ao longo de vários dias a conhecida operadora de rede social observou os comportamentos desse número extraordinário de “sujeitos experimentais”, que representa uma minúscula parte dos atuais mais de 1.28 mil milhões de utilizadores ativos diários. O que em concreto ocorreu foi que os participantes no experimento (involuntários, já que o Facebook não solicitou antecipadamente consentimento explícito para nela participarem, alegando ex post facto que o havia garantido através de uma cláusula genérica inscrita no contrato de serviço) se viram expostos, metade deles, a enternecedores vídeos com gatinhos ou imagens de suculentos bolos ou de radiantes emoticons, ao passo que a outra metade recebeu estímulos negativos na forma de relatos depressivos, imagens de pessoas enfermas e ví- deos de conflitos sentimentais.

A principal conclusão a que os investigadores chegaram foi a da existência do que designaram por “contágio emocional”: as pessoas expostas a feeds negativos revelaram maior tendência para postarem mais feeds negativos e as pessoas mais expostas a feeds positivos revelaram maior tendência para fazerem mais posts de feeds positivos. Isso parece significar que a natureza mais ou menos positiva das notícias induz comportamentos idênticos e, com o tempo, funcionam como reforço de estados psicológicos (humor) e atitudes correlatos.

Este experimento continua a provocar forte polémica. Dois aspetos em particular têm gerado especial inquietação e atenção. O primeiro concerne não tanto à realização deste experimento, mas sobretudo à generalização desta prática pelas operadoras de redes sociais. O colossal volume de dados que coligem sobre os seus utilizadores e que lhes permitem constantemente fazer estudos sobre os respetivos padrões comportamentais não apenas abre a porta para o regresso em força do indutivismo científico como, mais perigosamente, facilita processos de manipulação da conduta (por intermédio de publicidade dirigida, por exemplo) e até de engenharia social.

O segundo prende-se com a velha questão sobre se para que tais experimentos possam ser considerados legítimos basta que sejam apenas consonantes com a lei (assentimento dado aos termos e condições de utilização do Facebook) ou se se requer, para além disso, o seu esteio moral (a anuência informada e explícita dos implicados).

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