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O Coronavírus (Covid-19) e outras epidemias

Criado... não aceita mau destino

O Coronavírus (Covid-19) e outras epidemias

Voz às Bibliotecas

2020-04-09 às 06h00

Victor Pinho Victor Pinho

9 de Abril de 1918. Batalha de La Lys, Flandres. As tropas portuguesas sofriam uma pesada derrota, o maior desastre militar português depois da batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. O vírus influenza, da gripe espanhola ou pneumónica, começava a dar os seus primeiros sinais.
9 de Abril de 2020. Pandemia do coronavírus (Covid-19). Portugal sofre a primeira epidemia do século XXI. A Biblioteca Municipal de Barcelos está encerrada e com as suas actividades canceladas. Estou, como a grande maioria dos portugueses, em Teletrabalho.

O que estamos a viver, com esta pandemia, não é novidade na história dos povos e das nações, pois já passamos por outras epidemias congéneres, tanto ou mais devastadoras como esta. De estranhar é que, num mundo tão tecnologicamente evoluído, tão cientificamente testado e validado, sejamos apanhados desprevenidos por esta catástrofe.
A falta de liberdade pessoal, a obrigatoriedade da vida isolada sem contactos, reduzida às quatro paredes, é o contraste da vida agitada e tumultuosa que levamos, de afectos exuberantes e de exteriorizações mundanas, a maior parte das vezes supérfulas, egoístas e hipócritas.

A vivência em casa e em família faz-nos dar mais atenção uns aos outros, reforça os laços de amizade e de afectividade, leva-nos a ser mais solidários, mas também pode conduzir a irritações fáceis, a incompreensões e a polémicas inúteis. Por isso, devemos ser resilientes.
A quase total ausência de afectos, no internamento hospitalar e no leito de morte e a falta de acompanhamento no último adeus, torna o luto mais difícil de ultrapassar e desumaniza-nos. Afinal, embora noutro contexto, não podemos dar razão ao título do livro de Daniel Sampaio “Ninguém Morre Sozinho”, porque os doentes do coronavírus estão a morrer praticamente sem ninguém.
Resta-nos o “vale de lágrimas”, a que estamos submetidos, vivenciando imagens com doentes sedados e entubados, ligados a máquinas, assistidos por especialistas mascarados que mais fazem lembrar um qualquer filme de ficção científica.

Mas recuemos a oitocentos, para falarmos apenas dos tempos mais recentes. A febre amarela, que se seguiu à cólera, as duas grandes epidemias que grassaram em Portugal em meados do século XIX, que levou à morte do rei D. Pedro V, em 11 de Novembro de 1861, na flor da idade, com apenas 24 anos de idade, o monarca “esperançoso”, que tinha estado, com os seus pais, no norte de Portugal, e em Barcelos, nos meses de Abril e Maio de 1852, matou, em Lisboa, cerca de cinco mil pessoas. O monarca visitara os doentes internados nos hospitais de Lisboa, com desprezo pela própria vida.
Nas exéquias realizadas em Barcelos, Famalicão e na Sé de Braga, destacou-se o sermão do sacerdote barcelense e pregador régio José Vieira de Sousa Coutinho, durante alguns anos, capelão da Igreja da Misericórdia de Barcelos e, depois, pároco da Abadia de S. Silvestre de Requião, concelho de Vila Nova de Famalicão, a partir de 28 de Outubro de 1860.

Já no século XX, fomos afectados por outra epidemia, a pneumónica ou gripe espanhola, do vírus influenza que, no concelho de Barcelos, dizimou 700 pessoas e, no país mais de 60 mil e 20 milhões em todo o mundo. Dezoito meses foi o tempo que demorou a conter o vírus que varreu o mundo de Março de 1918 a Agosto de 1919. Após a primeira onda, de Maio a final de Julho, veio a segunda, de Janeiro do ano seguinte, a mais mortífera e de maior propagação, e a terceira onda, que nem todos os países registaram, e que durou até ao Verão de 1919.
A sua entrada em Portugal deu-se através dos trabalhadores sazonais portugueses que iam para Badajoz e Olivença e que trouxeram a doença para a localidade alentejana de Vila Viçosa, onde, no fim de Maio de 1918, ocorre a primeira morte.
A falta de caixões para os enterramentos fez com que muitas famílias os comprassem e guardassem debaixo das camas onde os seus familiares permaneciam.

São inúmeros os mortos, cuja notícia é dada pela imprensa local, alguns dos quais, mencionando-se expressamente que morreram de tuberculose. Mas, os jornais também noticiavam sobre o modo de combater a epidemia, publicitando-se os meios profiláticos utilizados em Espanha e defendidos pelo médico Dr. Tapia. As instruções profiláticas tinham a ver com a desinfecção, várias vezes por dia, do nariz e da boca e garganta, com uma solução denominada “Biclorol”, fornecido em pequenas caixas e que se dissolvia em meio litro de água fervida. No primeiro caso, introduziam-se, ainda, no nariz, algumas gotas de Oleumol, em pequenos frascos, de modo a poderem trazer-se no bolso. Referia-se que estes produtos se encontravam à venda na Farmácia Antero de Faria, situada, então, na rua Infante D. Henrique. (“Acção Social”, 07.11.1918) e, mais tarde, no Largo Dr. Martins Lima, em frente ao teatro Gil Vicente.
O que fazer? Aguardemos, com serenidade, resiliência e esperança que tudo isto passe, que a vida regresse à normalidade, que voltemos à liberdade, mas sobretudo que saibamos manter e cultivar os laços de solidariedade e de espírito gregário e cívico, a que a situação pandémica presente nos obriga.
Vai ficar tudo bem!

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