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O Coronavírus e um sentido de comunidade

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O Coronavírus e um sentido de comunidade

Ideias

2020-12-21 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Participei, há dias, num debate sobre a “Pandemia, Perspetivas de Futuro”, organizado pelo Jornal de Notícias, com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. O jornalista Domingos de Andrade, hoje Diretor-Geral do Global Media Group, fez a abertura. E Paulo Ferreira, jornalista do Jornal de Notícias, moderou o painel, em que intervieram os Engenheiros Luís Braga da Cruz e António Costa e Silva, o economista Pedro Pitta Barros, o virologista Pedro Simas, e eu próprio, apresentado como sociólogo. Fez o encerramento o Presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues.
Luís Braga da Cruz, que foi Ministro da Economia e presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, fez a intervenção de fundo e deu o mote ao debate. Fazendo jus ao seu interesse por temáticas territoriais e regionais, centrou a intervenção na crise do território, sobretudo, na crise das suas principais indústrias, referindo especificamente a crise do turismo, e também na aceleração das desigualdades sociais na Região. Por essa razão, colocou uma ênfase particular nas respostas a dar pela Região Norte às questões do desenvolvimento económico e à criação de emprego.

De um do geral, os conferencistas desenvolveram os seus pontos de vista em torno destes aspetos, os do desenvolvimento económico e o da criação de emprego. No entanto, contrariando atitudes negacionistas para com a ciência, elogiaram a capacidade de reação da comunidade científica, assim como a sua mobilização e capacidade, para em tempo recorde criar uma vacina, condição essencial para ultrapassar a crise pandémica.
António Costa e Silva desenvolveu um ponto de vista, a meu ver mais sofisticado e inspirador. Assinalou a necessidade de desenvolvermos modelos de governação compatíveis com a transição energética e com a transição digital. Assinalou também a necessidade de governarmos a sociedade de conhecimento, assim como os sistemas da complexidade. Insistiu na importância de termos modelos de desenvolvimento regional, que descentralizem o crescimento e as decisões. E destacou um grande desafio que temos pela frente. Elogiando a resposta dada, durante a pandemia pelo Sistema Nacional de Saúde, no que foi seguido por Pedro Simas, insistiu na necessidade de o repensar, dada a sua atual frágil estrutura, que a pandemia mais trouxe a nu.

Para todos os intervenientes, todavia, a crise da comunidade humana, à escala global, parecia ter como única origem o Coronavírus. Não compartilhei esse ponto de vista.
A atual crise do humano é, antes de mais, uma crise do nosso modelo de civilização. As instituições que fizeram o Ocidente assentavam no regime do logos (palavra e pensamento) e garantiam o futuro. Com efeito, o sistema democrático promete, pelo poder Legislativo, que as leis sejam justas; pelo poder Executivo, que as decisões sejam boas; e pelo poder Judicial, que haja igualdade dos cidadãos perante a Lei. Mas promete, igualmente, a emancipação da comunidade pelo exercício da cidadania. Assim como promete o seu reforço, pelo poder dos média, que estruturam e alimentam o espaço público. E promete, ainda, através das universidades, a emancipação do espírito.

Este regime centrado no logos entrou em crise, com o advento do regime tecnológico, com a deslocação da palavra e do pensamento para o número e a medida, da linguagem literária para as imagens de produção tecnológica (produção de conteúdos audiovisuais e multimédia, e produção de realidades virtuais), enfim, das estrelas para os ecrãs. E assim, de uma linguagem que nos falava à razão, passámos a uma linguagem virada nas emoções, que nos fala aos sentidos.
A inovação tecnológica é hoje o critério em que assenta, preponderantemente, o desenvolvimento e o crescimento humanos. Mas com o critério de verdade a repousar no número e na medida, pode dizer-se que se dá um abastardamento da promessa. A mobilização tecnológica que não para de nos acelerar, total e infinitamente, para as urgências do presente, e sempre para uma competição, um ranking e uma estatística, é o messianismo que nos resta, um messianismo de meios sem fins. Mas ao perder o fundamento seguro, o território conhecido e a identidade estável, o humano entrou em crise.

Nunca estivemos verdadeiramente defendidos contra os radicalismos nacionalistas e tribais, contra a discriminação e a segregação do estrangeiro, contra a cultura do ódio e as políticas xenófobas e racistas. Porque a cultura de mansidão e de integração de todas as diferenças, a cultura do cuidado a ter com o território (enfim, com o planeta) e com as comunidades é um combate nunca ganho, e portanto é um combate a fazer-se sempre, em todas as épocas. Mas é ainda mais difícil hoje, na época tecnológica, pelo risco do abastardamento da promessa. A este respeito, o escritor argentino, Jorge Luís Borges, escreveu, no poema Unending Gift (dom Imperdível), que apenas pela promessa garantimos o futuro, porque nela alguma coisa vive para sempre. E com razão, acrescenta, apenas pela palavra podemos prometer.

O vírus que antes da COVID-19 sitiou a Cidade e colocou em crise a comunidade humana, há muito que está implantado entre nós. Chama-se falta de sentido de comunidade. Em vez de um horizonte de comunidade, que seja um sonho de integração dos mais frágeis, dos mais vulneráveis e dos mais necessitados, vemos desenvolver-se socialmente um funcio- namento tribal. E a tribo tem uma prática excludente, afasta quem não sente, não pensa e não faz como ela.
Penso que a pandemia veio acelerar o funcionamento tribal da nossa sociedade. A pandemia apressou o nosso passo no sentido da comunicação digital. Mas este movimento não aponta, necessariamente, para um horizonte de comunidade. Pelo contrário, com o avanço da comunicação digital e acorrentados a um quotidiano preso ao ecrã, corre-se o risco de os mais frágeis, os mais vulneráveis e os mais necessitados serem esquecidos e ficarem para trás.

Além disso, os sistemas de informação dão-nos, também, a possibilidade de estendermos até confins a servidão humana. Tendo concorrido para o avanço da sociedade tecnológica, da comunicação digital e para a tribalização do mundo, de que as redes sociais são um exemplo, é necessário impedir que, tanto em tempo de pandemia, como a seguir a ela, assente arraiais no seio da comunidade humana, o descaso relativamente aos jovens, aos mais velhos, às pessoas com deficiência, aos desempregados, aos migrantes forçados e às minorias étnicas e religiosas.

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