Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O crucifixo da minha escola primária

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2014-07-12 às 06h00

Escritor

Há muitos, muitos anos atrás, meados da década de cinquenta do século XX, com sete anos de idade, iniciei o antigo ensino primário numa bonita escola construída pelo chamado Estado Novo. Muito bonita, a escola fazia parte de uma rede escolar que primava pelo interesse das crianças (alunos) e como tal a sua proximidade com os educandos era uma preocupação dos governantes daquele tempo.
Num tempo em que os portugueses viviam “orgulhosamente sós”, quase não pagavam impostos, estando pois livres do “sufoco fiscal” que o seu principal “criador” veio admitir publicamente há dias sem demonstrar qualquer pudor, e em que não havia necessidade de empréstimos de dinheiro duma Europa refém de um capitalismo internacional usurário, o tal Estado Novo construía nas aldeias e vilas de um país com elevadas taxas de analfabetismo belos edifícios escolares onde funcionavam escolas masculinas e escolas femininas. Centenas e centenas de belas escolas localizadas no seio de pequenos aglomerados populacionais que têm vindo a ser encerrados contra a vontade de pais e alunos.
Eu sou do tempo em que nas salas de aulas existiam, afixados na parede que ficava por trás da secretária da professora, um crucifixo e duas molduras, uma com a fotografia do Presidente do Conselho de Ministros António Oliveira Salazar, a outra com a fotografia do Presidente da República Portuguesa Francisco Higino Craveiro Lopes; em que a escolaridade mínima obrigatória era a 4.ª classe mas como a fragilidade financeira das famílias empurrava as crianças para o trabalho, principalmente agrícola, o abandono escolar era uma prática comum que o poder tolerava; em que todas as manhãs os alunos formavam filas no átrio da escola para gritarem um “bom dia, senhora professora!”; em que a professora ensinava, educava, dava umas reguadas ou umas canadas quando os alunos não se portavam bem, e os pais ainda lhe ficavam gratos; em que havia aulas de caligrafia; em que muitos alunos com idades entre os sete e os 11 anos eram obrigados a caminhar sozinhos vários quilómetros para chegar à escola e se, em tempo de chuva chegavam à escola encharcados, encharcados ficavam, a tiritar de frio, até ao final das aulas; em que um ou outro aluno levava para a escola um pão com manteiga ou marmelada para lanche mas a imensa maioria levava apenas um naco de pão de milho cozido há vários dias, muitas vezes já bolorento; em que os livros, cadernos escolares e a lousa (pequeno retângulo de ardósia encaixilhada) eram transportados dentro de um pequeno saco de pano com uma alça; em que os alunos apresentados a exame da 4.ª classe tinham de saber ler e escrever sem erros, dizer e “cantar” a tabuada, descrever os principais rios de Portugal Continental, bem como os locais onde nasciam e desaguavam, indicar rapidamente no mapa onde se situava uma cidade, um rio, ou uma serra e narrar as principais batalhas da nossa história (S. Mamede, Ourique, Aljubarrota…); em que não havia televisão e os famosos, os notáveis que os portugueses conheciam eram reis de Portugal, Egas Moniz, Gil Eanes, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Gago Coutinho e Sacadura Cabral.
Foi numa destas bonitas escolas mandadas construir pelo Estado Novo que fiz a 4.ª classe e fui um aluno exatamente igual aos outros. As memórias desse tempo de encantamento não se apagam. Oh, como me lembro do breve, brevíssimo tempo de recreio a meio das aulas! Os folguedos, as correrias frenéticas atrás da bola de trapos, o jogo do botão…!
Essa escola, a minha escola, chama-se: Escola Primária do Gerês. Ela como tantas outras deste país, está seriamente ameaçada de encerrar em resultado de políticas liberais em curso neste país que não respeitam a coesão social de um povo.
A única professora que tive no ensino primário foi a saudosa dona Dinorah que iniciou a carreira docente no ano de 1935 e exerceu a sua nobre profissão na Escola Primária do Gerês durante décadas até atingir a idade de aposentação. Ao longo da sua extensa carreira foi uma professora muito estimada por pais e alunos, sendo-lhe reconhecido altíssimo mérito profissional. Competente, imbuída de um espírito de missão inigualável e muito exigente com os alunos, os resultados que ano após ano ia alcançando com os seis alunos superavam sempre as expectativas. Aluno que levasse a exame estava preparado e era aprovado. As enormes qualidades humanas e a competência profissional, fizeram de dona Dinorah uma pessoa muito respeitada e admirada por todos.
Em março de 1958 a Escola Primária do Gerês, sofreu um violento incêndio provocado pelo lume de uma braseira. Segundo parece constar do Arquivo Municipal de Terras de Bouro, do edifício restaram apenas as paredes. Como a escola tinha duas salas de aulas, uma para a Escola Masculina, a outra para a Escola Feminina, e em cada uma delas existia uma braseira, de imediato surgiram especulações e acusações sobre a sala onde o incêndio teria começado.
Sendo certo que nunca se chegou a saber em qual das salas o fogo começou, no rescaldo do incêndio surgiu um facto insólito que causou grande perplexidade nas pessoas e houve alguém que o chegou a classificar de “humanamente impossível de explicar”: O crucifixo afixado na sala de aulas onde lecionava a professora Dinorah escapou ileso às chamas. Afirma a sua filha Hélia Vilela — que recentemente doou o crucifixo à capela de Santa Eufémia do Gerês — que a mãe sempre acreditou que Deus tinha salvado o crucifixo da sala onde dava aulas para ficar como prova de que o incêndio não tinha começado na sala da Escola Masculina.
Nota: O edifício da Escola Primária do Gerês foi reconstruído rapidamente e no ano letivo a seguir ao incêndio já funcionou.

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