Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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O Cuco da Carvalheira

A recuperação das aprendizagens

Conta o Leitor

2021-07-30 às 06h00

Escritor Escritor

Luiz Saragoça

Estranho cantar o do Cuco, em vez de cantar com o bico, como os outros pássaros, canta: cucu, cucu, cucu,…

Os freixos e as carvalheiras estavam a recompor-se dos rigores inverniços e a vestirem a melhor roupagem para a primavera, que estava a dar os primeiros ais.
Os “compadres” cucos, depois das andorinhas, foram os primeiros pássaros a chegarem ao planalto, vindos das terras quentes do sul.
Enquanto os seus parentes esvoaçantes porfiavam a construir os seus ninhos, cada qual o mais belo, para se abrigarem das chuvas primaveris e dos calores estivais e, no aconchego do lar, para criarem os seus filhotes, os matreiros cucos, empoleirados nos ramos mais altos, divertiam-se, com o galante cuco a arrastar a asa à sua amada, soltando ritmadas cantorias - cucu, cucu, cucu … - para a conquistar.
Os boieiros e as boieiras, que apascentavam os ruminantes nos lameiros do planalto, também apreciavam as suas cantorias que anunciavam a chegada da primavera.
- Cuco da carvalheira, quantos anos me dás de solteira? – Perguntava-lhe, a Maria, divertida.
- Cucu, cucu, cucu, … - respondia este do alto do seu poleiro.
Cada cucu correspondia a um ano de solteira e a cantoria já ia numa dúzia de vezes!
- Cuco fecha o bico! – Resmungava, entre dentes e descontente, para os seus botões. Não quero ficar solteira tanto tempo.
- Agora é a minha vez – atreveu-se a irmã mais nova da Maria a questionar o pitoniso:
- Cuco da carvalheira, quantos anos me dás de solteira?
- Cucu, cucu, …
O cuco, indiferente aos pensamentos e anseios da Maria e da irmã, cantarolava até se cansar, por entre as carvalheiras, enquanto a sua amada cuca o observava embeiçada, ou melhor embicada com a melodia tão distinta.

Os dias voaram sobre o planalto e ninho de grilo. A cuca, jovial, também não se preocupou, pois os dias eram quentes e as noites amenas, e ia dormindo ao abrigo da folhagem mais densa.
Porém, o instinto da procriação chamava-a à razão: a oportunista cuca não tinha onde encostar a sua cloaca, para pôr os seus lindos ovos e criar os seus filhotes. Tinha de encontrar uma solução.
Começou a espiar os ninhos dos seus parentes e reparou que, mesmo por debaixo do seu poleiro de ocasião, numa canhota, estava um belo ninho de melro com alguns ovos sarapintados como os seus.
A cuca, matreira, com a simplória melra de espreita, mal a viu ausentar-se, já com o ovo na ponta da cloaca, assenhoreou-se-lhe do ninho e depositou um dos seus, juntando-o aos restantes. Já mais leve, esgueirou-se novamente para o seu poleiro, como que, com o dever cumprido.
A incauta melra, pouco dada à matemática, nem reparou que os ovos tinham sido acrescentados e, também, não se preocupou com o assunto. Juntamente com o seu companheiro chocaram os ovos com carinho e, passados alguns dias, nasceram uns passaricos ainda despidos e desajeitados.
Porém, um dos filhotes era diferente dos outros: começava a desenvolver cores acinzentadas em vez de pretas, bico acastanhado em vez de amarelo e, pior que tudo, tinha maus feitios. A melra olhava para todos os filhotes babada, mas estava intrigada com aquelas diferenças. O companheiro, desconfiado, chamou-a à razão:
- Que se passa com aquele filhote? Não se parece nada comigo! - Perguntou, apontando com o bico na direção do zorrico.
- Eu sei lá! – Respondeu a companheira, encolhendo as asas e jurando a pés juntos que não tinha andado por ninho alheio.
Mal os progenitores chegavam com o subiaco, o desenvolto cuco era o primeiro a abrir o bico e toda a comida era pouca para aquele impostor. Enquanto o cuco crescia a olhos vistos, os melricos não saíam do sítio.
A convivência no ninho também não era pacífica e, bicada aqui, bicada acolá, o cuco tornou-se o senhor e rei de todo o ninho. Os melros, escanzelados, um a um, acabaram por ser empurrados para fora do ninho e, sem asas que os amparassem, esborracharam-se no chão.
Os melros, pais carinhosos e diligentes, fizeram das tripas coração para alimentar aquele oportunista, sempre com o bico aberto a exigir subiaco.
Agora, morgado, o seu crescimento foi rápido e ganhou asas em poucos dias. Já cuco feito, sentindo os apelos do instinto, abandonou o ninho sem se despedir dos seus pais adotivos que tanto se sacrificaram para o criar – nem uma palavra, ou melhor, nem um pio de satisfação e de reconhecimento. Voou para uma carvalheira próxima onde dois velhos cucos o observavam à distância. Olhou para eles e as parecenças na plumagem eram tantas que o deixaram intrigado.
- Cucu, cucu, cucu, … cantarolou o velho cuco.
- Cucu, cucu, cucu, … cantarolou o cuquito.
A cantoria era a mesma.
- Será que são meus parentes!? - Cogitou ele.
Os velhos cucos olharam para ele e reconheceram o seu filhote, criado pelos ingénuos melros, e acolheram-no no seu poleiro.
Agora, mais um bico espalhava melodias no planalto, até que o outono trouxe as primeiras geadas e despiu os freixos e as carvalheiras. Os “compadres” cucos, sem casa nem bens para abandonarem, rumaram a sul, alegres e contentes, onde terras mais quentes os esperavam por uns meses.

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