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Ó Deus me baila!

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Ó Deus me baila!

Voz aos Escritores

2020-04-24 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Eu sei, eu sei que anda por aqui o verbo «valer», numa forma que a dona Conceição e muitos amigos nortenhos conhecem desde pequeninos. A brincar, perguntei-lhe: você baila com Deus? E ela, rindo: não é baila de bailar. Eu condescendi, porque conheço o provérbio: «não tem nada, quem nada lhe baila». Não é baila de bailar, porque é valha de valer. Nas zonas fascinantes da fonética popular, a lei da economia linguística impõe-se sem entraves normativos, e convenhamos não ser nada fácil conjugar conjuntivos de semelhante calibre. Quem, de entre menos sábios, dirá valha ou coisa que se equivalha? O verbo «valer» não é de conjugação muito fácil, e está assim perdoada a forma. A brincar, lá me disse a dona Conceição que «quem de novo baila, de velho seu jeito tem», querendo ironicamente justificar o uso incorreto do verbo.

Não sei se há por aqui problemas de analogia com usos diferenciados da mesma palavra, usada na expressão idiomática «trazer à baila», isto é, «vir a propósito», «trazer à discussão». Há coisas, informações, reentrâncias, evidências discursivas, que veem a luz na decorrência do que é dito. As palavras são como os tremoços: quando pegamos nelas, o difícil é parar. Trazer à baila não significa, por conseguinte, trazer ao baile, e reminiscências rítmicas são as que deslizam da discussão natural. Neste contexto semântico, chamar, estar, andar ou vir, à baila, claro, são também aceitável e produtivo suporte, e todos compreendemos o que é dito quando é dito. Difícil, difícil, é isolar das expressões o nome. O que significa, isoladamente, o elemento «baila»? O Dicionário Houaiss remete-nos para um peixe teleósteo muito parecido com o robalo, para uma reunião festiva onde se dança, ou, por metonímia, para uma mulher que baila. São usos que desconheço, embora admita uma possível ingestão do peixe. O Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa afina pelo mesmo diapasão, e releva, como aquele, bailados e bailaricos. O que têm, no entanto, robalos, reuniões e dançarinas a ver com a discussão? O nosso Cândido de Figueiredo não estava pelos ajustes e propunha «balha», em detrimento de «baila». Há, ao mesmo tempo, registo de uma terceira forma, «bailha», que mais não é do que a formulação fonética e popular de «balha». Temos, portanto, uma expressão «trazer à balha» bem distante da elocução da alegre dona Conceição.

Na nossa sincronia, a palavra «balha» não tem uso, isoladamente. Mas algum significado há de ter tido, para caber tão profusamente na expressão. A mais lógica, apresentada por Napoleão Mendes de Almeida, remete para uma divisão de madeira cravada no chão, e que era uma espécie de barreira, de referência, para cavaleiros em luta. Vir à balha, significa, então, tocar-lhe, para quebrar novas lanças ou acudir a novo desafio. A evolução semântica é evidente, pois nem hoje há destes cavaleiros, nem barreiras deste tipo se afiguram necessárias. Mas são, por vezes, necessárias nas rimas, quando calha, quando o poeta se espalha, quando falha ou quando se baralha, e, no limite, quando os burros comem palha.

Comparativamente, gosto muito mais da luz. A luz, do sol, de todas as estrelas, das lareiras ou dos candeeiros, a luz interior que nos ilumina a vida, vale infinitamente mais do que a belicosa balha. Por isso prefiro que venha à luz, a lume, tudo o que tiver de vir, mesmo que seja uma crónica desenxabida como a que aqui apresento. Dar ou trazer à luz é ato vivificante, e é com certeza por isso que amamos sem condições os nossos pais. Há quem, política ou filosoficamente, prefira trazer à tona, à colação, coisas da vida que não interessam nem ao menino Jesus. Pela minha parte, desde que me cantaram, de nariz analfabético, um «trazer à coação», fiquei definitivamente coagido, e renego irrevogavelmente a «colação».

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