Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O dia do aniversário

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2016-07-15 às 06h00

Escritor

Manuel Correia

O dia estava a começar. O sol entrava por entre os ramos de uma nogueira, junto à janela do quarto, da pequena Ana que dormia como um anjo. Aconchegada ao seu edredão, cor-de-rosa, dormia sossegada, a menina das asas, agarrada ao seu ursinho de peluche, amarelo-torrado. Ainda dormia, porque tinha adormecido muito tarde, era tanta a excitação de chegar ao dia do seu aniversário que, o sono teimava em não chegar. Mas finalmente adormeceu num sono pesado, dormia e sonhava, talvez com o dia que gostava de ter no seu sétimo aniversário: as prendas dos pais, dos avós e do Tio António que vinha passar umas férias à casa dos seus avós. De preferência, muitas prendas: como o ursinho amarelo-torrado que o avô e avó lhe deram. Gostou tanto que nunca mais dormiu sem o seu ursinho amarelo-torrado.
A dorminhoca finalmente acordou! Abriu os seus pequenos olhos, verdes cor de alface, levantou o edredão para o fundo da cama, com os pés. E lembrou-se que era o dia do seu aniversário e, não havia escola porque era sábado. E o melhor ainda estava para vir: as prendas, o bolo com sete velas, uma mais do que o ano passado. A festa de aniversário de que tanto esperava tinha chegado o dia!
Depois, de acordada e bem acordada, desceu as escadas do seu quarto e, foi para a cozinha, aonde estava o seu pai e a sua mãe a tomar o pequeno-almoço. A descida foi tão rápida que, não deu tempo dos pais darem conta que Ana tinha descido! Foi com espanto que a mãe disse:
- Sim senhora, a nossa menina hoje está a começar bem o dia! E com um ar de quem não sabia que dia era continuou a mãe— A cama tinha bichos-carpinteiros? Ou, será que a nossa menina tem alguma coisa que nos quer esconder? O pai continuou— Não, isto deve trazer água no bico, como da outra vez, quando o Tio António esteve cá em casa. Ela gosta mais do Tio António do que do pai. Não admira o Tio quando vem enche-a de mimos e prendas, e o pai não. A Ana resolveu falar, antes que continuassem a dizer asneiras, mesmo sabendo que estavam a brincar com ela e disse:
- Não sabem que dia é hoje?
- Hoje! Bem...hoje... é sábado, dia onze de Abril— disse a sua mãe.
- Não. Hoje é dia doze de Abril, o dia do meu aniversário.
- Olha que estás enganada, hoje é dia onze de Abril— disse o pai.
A brincadeira já tinha confundido a Ana que, por momentos tinha achado que estava errada e, não disse mais nada, como também os seus pais não disseram mais nada.
Depois, de tomar o pequeno-almoço, foi brincar para casa dos avós, que ficava perto da sua casa. Durante o caminho ia a pensar— “como é que eu me enganei no dia dos meus anos? Como foi possível?” E continuou a sua caminhada até chegar à casa dos seus avós. Quando chegou, e viu o seu avô, perguntou-lhe de imediato que dia era, e o avô disse que, era dia onze de Abril. Quando viu a avó fez a mesma pergunta e, avó disse a mesma coisa. Que era onze de Abril. Estava completamente convencida. Mas que grande confusão, pensava! 
Depois de falar com o avô e a avó, caminhou para o seu sítio secreto. O prado mágico. Quando chegou toda a magia escondida, apareceu: as árvores abanavam as folhas como que a dizer, olá, olá, como está a nossa menina? As flores de todas as cores olhavam para ela e sorriam como se fossem meninas. As borboletas apareceram e, a Ana imaginou que tinha umas asas cor-de-rosa. Lentamente, as asas cor-de-rosa apareciam nas costas da Ana. Já com asas, voou com as borboletas o mais alto que podia e, voltava até ao chão. Brincou com os passarinhos à apanhada que, voavam mais rápido que a Ana e se escapavam sempre. Apenas conseguiu apanhar um passarinho que, se desequilibrou no seu voo e, ia caindo.
As horas tinham passado e estava na hora de ir para casa. Os seus pais esperavam-na para o almoço. O caminho era curto e depressa chegou a casa.
Quando abriu a porta de casa, estava tudo silencioso. Não via a sua mãe nem o seu pai. Mas que estranho— “pensou a Ana!” Chamou pela mãe. Chamou pelo pai e, nada. Ninguém estava em casa!
Resolveu continuar a procurar: na sala e na cozinha, ninguém! Nos quartos também não estava ninguém! Bom, como estou com fome, vou comer um bocado de pão de milho, barrado com manteiga e uma rica cenourinha. Quando chegarem, eu já cá estou há mais tempo e sou a primeira— pensou a Ana.
Quando chegou à cozinha e, abriu a porta, estavam lá todos: os pais, os avós, o Tio António, a Tia Lena e a prima Carla. Ficou tão espantada que não sabia o que dizer. No meio de tanto espanto da Ana, todos juntos cantavam os parabéns a você. Ana estava radiante, feliz! Todos vocês me enganaram. Eu tinha razão, hoje é o dia do meu aniversário— disse a Ana.
Todos a tinham enganado. Foi a melhor festa de aniversário que alguma vez a Ana tinha tido: todos lhe deram um presente. O avô deu-lhe um ursinho cor-de-rosa, foi o presente que mais gostou. Agora tinha dois ursinhos para dormir com ela.
Ana gostou tanto da festa que, agradeceu a todos a surpresa. E ficou a saber que quando é surpresa é muito melhor. Nessa noite os sonhos foram de todas as cores...      

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