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O diabo e os outros dias

Rizoma

Ideias

2017-02-28 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

“Gozem bem as férias que em Setembro vem aí o diabo”. Foi com esta frase-profecia que Passos Coelho se despediu dos parlamentares do seu partido, na última reunião da bancada, antes das férias do ano passado.

Trago este assunto à colação não pelo facto de a predição catastrofista do líder do PSD se ter concretizado na data vaticinada, mas porque agora, alguns meses volvidos, parece que o mafarrico acabou por aparecer. É certo que este belzebu não é o mesmo que Coelho anunciava, bem pelo contrário, o de agora, que encarnou num livro cometido por uma figura esfíngica, não teve qualquer interferência nos resultados recentes da economia portuguesa, como dramatizava o líder social-democrata. Pena que estes dotes de oráculo de Passos Coelho não tenham tido correspondência com a realidade quando ele teve responsabilidades governamentais porque, se tal tivesse sucedido, os portugueses e o país não tinham sofrido tanto nem a economia portuguesa estava no estado em que se encontra. Mas essas são contas de outro rosário…

O mafarrico, perdão, o livro cavaquista surge para o seu autor dar prova de vida, para mostrar que ainda mexe e que é capaz (será?) de influenciar a política portuguesa. Aliás, na sequência da apresentação até já teve direito a grande entrevista televisiva. Para um homem que não gosta da comunicação social, que nunca falou quando se impunha, este súbito interesse pelas luzes da ribalta é extraordinário.
De um antigo Chefe de Estado esperava-se bastante mais, aguardava-se um balanço, eventualmente uma reflexão séria sobre o estado do país, nunca um texto rancoroso, vingativo, que destila fel, uma exasperante narrativa auto encomiástica de um personagem que parece estar de mal com a vida.

Percebe-se que Cavaco esteja deveras incomodado com a forma como saiu de Belém - com uma popularidade baixíssima que não corresponde à imagem que a criatura tem de si própria. Julga ainda estar a tempo de alterar o juízo que os portugueses dele fazem e, nessa perspectiva, tenta retocar o retrato que a história já lhe reservou. Mas não será esta espécie de livro de actas, no qual sobra vingança e recalcamento e escasseiam esclarecimentos sobre alguns dos episódios que mais marcaram o seu percurso político, que vai operar o milagre. Mesmo sabendo que muita direita já anda a salivar mesmo antes de o ler, creio que este ajuste de contas apenas servirá para sublinhar mais acentuadamente o carácter mesquinho do seu autor. Até pela descarada violação de uma regra básica de confiança institucional - a revelação de conversas que o bom senso e a educação deveriam manter privadas.

Desse ponto de vista, e sem prejuízo do inalienável direito de expressão, quer-me parecer que Cavaco perdeu uma excelente ocasião para fazer aquilo que melhor sabe - estar calado. Porque se não tencionava, como se comprova, resguardar o prestígio das instituições, melhor teria sido manter o silêncio e, assim, não contribuir para diabolizar ainda mais os políticos.

Cavaco deveria saber que a vingança se serve fria, não a quente como o fez, e, principalmente, tem que interiorizar de uma vez por todas que um verdadeiro estadista não privilegia interesses egocêntricos em prejuízo dos interesses nacionais. Falta-lhe, entre outros atributos, o rigor, a imparcialidade e o distanciamento, que são apanágio de grandes homens, e essa será também uma causa determinante para o livro não ficar para a história. Acredito que consiga lugar na pequena história, na história das tricas políticas, da inveja e do despeito, ao lado, por exemplo, do livro “Eu e os Políticos”, do inenarrável José António Saraiva.

Se Cavaco Silva tivesse de facto o propósito de prestar contas aos portugueses, como apregoou, então não deveria ter centrado a obra apenas nas quintas-feiras. Impunha-se que falasse de casos nunca devidamente esclarecidos que envolveram alguns dos seus colaboradores mais próximos. E nem estou a referir-me a Fernando Lima, porque esse foi bem explícito quando disse ter recebido ordens superiores no famoso processo das escutas de Belém.
Creio que lhe ficaria bem esclarecer, agora que está liberto das responsabilidades institucionais, alguns dos imbróglios em que o seu nome esteve envolvido. Trapalhadas que, face à ausência de explicações, constituem uma mancha no seu longo currículo político.
Entendeu não o fazer no livro e, na entrevista à RTP, perdeu-se novamente a oportunidade de ver esclarecidos assuntos tão relevantes como os processos de aquisição e venda de acções da Sociedade Lusa de Negócios (ligada ao Banco Português de Negócios (BPN), que rebentou com enorme estrondo). Ou os negócios relativos aos processos da aquisição da vivenda de férias, no Algarve. Já para não falar da associação que geralmente é feita à ascensão política de figuras que lhe são muito próximas, como Dias Loureiro, Oliveira e Costa e o próprio Duarte Lima.

Enfim, sob o ponto de vista do esclarecimento público ou, se quisermos, da prestação de contas, o livro é um autêntico flop e, consequentemente, a sua leitura uma pura perda de tempo. O facto de apenas servir para desviar as atenções dos assuntos que verdadeiramente interessam aos portugueses é a machadada final num livro que pode ter um enorme êxito comercial mas que é completamente irrelevante. Ah! , a propósito, o autor não foi ultrapassado pela realidade, como diz. Foi derrotado!
Mas sabemos que o rol de manobras de diversão é praticamente inesgotável, como se está a verificar com a gritaria do PSD-CDS sobre Centeno, esta para tentar secundarizar o essencial - o défice de 2016 não será superior a 2,1% do PIB, sendo o mais baixo défice da Democracia - e desviar as atenções do facto de o Fisco ter deixado sair 10.000 milhões para offshores sem vigiar transferências. Haja decoro!

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