Correio do Minho

Braga, terça-feira

O direito à educação

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Escreve quem sabe

2012-04-28 às 06h00

Fernando Viana

A Constituição garante no artigo 73.º que “todos têm direito à educação e à cultura”. Vem isto a propósito de um programa que a TVI passou esta semana e em que fiquei chocado com as imagens de violência sobre os alunos e professores, que constituem o infeliz quotidiano de alguns estabelecimentos de ensino.

Fiquei chocado mas não devia. Efetivamente, qualquer canal de televisão generalista usa e abusa de tudo o que é menos positivo na nossa sociedade, a pontos de, por vezes, sermos levados a julgar que vivemos no Inferno. Todos os dias, a televisão desfila um sem número de escândalos políticos, na nossa sociedade e no desporto. Se o caso então envolver figuras públicas (os ditos VIP) então tem especial acompanhamento.

Repare-se que qualquer serviço noticioso dispensa em regra 15 minutos à crise, a que seguem mais 15 sobre a insegurança e criminalidade e outro tanto sobre os “casos” do futebol. Pelo meio ainda passa muita desgraça: são os acidentes rodoviários, ou os fogos ou as cheias. Tudo o que seja demonstrativo de miséria humana constitui matéria-prima de grande valor noticioso.

Voltando ao tema, a educação, eu sou de opinião que se há área em o país investiu muito desde o 25 de Abril foi na educação.
Fazendo um aparte, aqui há um bom par de anos um jornal publicava na edição de fim de semana uma fotografia com uma “pérola” ilustrativa do nosso nível cultural: era a promoção da “Sevenap” num supermercado ou o placard colocado num campo onde se podia ler “A-SEITASE entulho” e outras do género. Lembro-me de na altura ter visto e fotografado um barco no Rio Minho em Caminha, que dava pelo nome de “Fêlorinda”. Porém, já mais recentemente e ao passar no mesmo local, voltei a ver o mesmo barco entretanto rebatizado de “Florinda”. Muito se fez, mas muito está por fazer.

Tenho a convicção de que na maior parte dos estabelecimentos de ensino existem condições para que os professores ensinem e os alunos aprendam e que o que o programa da TVI apenas retrata, felizmente, uma parcela da realidade e que mais não é do que o resultado da aplicação de políticas de ensino erradas, desadequadas da realidade, que apenas contribuíram para esvaziarem as escolas e os professores da autoridade e do respeito necessários ao processo de ensino aprendizagem. Foram anos e anos de massificação educativa, de criação de Escolas de enormes nos grandes centros urbanos, com milhares de alunos, e a aplicação de políticas apostadas em conseguir estatísticas que demonstrassem que o país estava na linha da frente em termos de sucesso escolar.

O resultado, não sendo generalizado, está à vista e o programa da TVI é arrepiante nessa autópsia: professores desmotivados e em que a ida para a Escola é uma tortura física e psicológica e um bando de alunos ignorantes, que fazem do espaço escolar um cenário de vandalismo e de terror, onde o insulto, ou a agressão física dos mais fracos fazem parte do quotidiano. Em muitas o caos, a anarquia estão instalados. Não nos podemos esquecer que aqueles alunos farão parte da sociedade de amanhã!

Acredito porém que existe atualmente uma vontade de dignificar novamente as Escolas permitindo que cumpram a missão para que foram construídas: ensinar e aprender. Pena é que em muitos casos se tenha começado pela forma e não pela substância. De facto, sendo inquestionável que muitas escolas estavam degradadas e não possuíam o mínimo de condições, é duvidoso que tivesse sido necessário gastar milhões em obras de requalificação, ao ponto de nalgumas o hall de entrada se as-semelhar mais a um Hotel de 5 estrelas que a uma escola, ou que o sistema de iluminação passe pela compra de candeeiros de autor, cujo preço anda hoje nas bocas do mundo.

Deixa o teu comentário

Últimas Escreve quem sabe

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.