Correio do Minho

Braga, terça-feira

O Escutismo e a Política

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Escreve quem sabe

2015-04-17 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Em vésperas de celebrarmos um novo aniversário sobre a Revolução Libertadora de Abril gostaria de refletir sobre a visão que o escutismo tem relativamente à participação do escuteiro católico na vida política, partindo do pensamento do fundador, Baden-Powell, e da Igreja.

Na Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no Mundo Atual, um dos mais importantes textos do Concílio Vaticano II, publicado pelo Papa Paulo VI, em 1965, dedica o capítulo IV, da II parte, à vida da comunidade política, onde se pode ler (p.77): “Todos os cidadãos se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos homens.”

Como sempre, os padres conciliares não se esquecem dos jovens (p.78): “Deve atender-se cuidadosamente à educação cívica e política, hoje tão necessária à população e sobretudo aos jovens, para que todos os cidadãos possam participar na vida da comunidade política. Os que são ou podem tornar-se aptos para exercer a difícil e muito nobre arte da política, preparem-se para ela; e procurem exercê-la sem pensar no interesse próprio ou em vantagens materiais.”

Mas também clarificam alguns limites (p.79): “É de grande importância, sobretudo onde existe uma sociedade pluralística, que se tenha uma concepção exata das relações entre a comunidade política e a Igreja, e, ainda, que se distingam claramente as atividades que os fiéis, isoladamente ou em grupo, desempenham em próprio nome como cidadãos guiados pela sua consciência de cristãos, e aquelas que exercitam em nome da Igreja e em união com os seus pastores.”

Importa também saber o que significa para nós, escuteiros católicos, o segundo dos três Princípios do Escutismo: O Escuta é filho de Portugal e bom cidadão. É certo que determina uma relação paternal entre Portugal e cada escuteiro, cujo elemento aglutinador é o Amor. Mas também é bom cidadão, por isso exerce a cidadania, isto é, participa ativamente e responsavelmente na vida da pólis.

Baden-Powell no seu livro destinado aos jovens adultos, A Caminho do Triunfo, onde, sob o título “Sê Homem de Visão Larga” (p.186), afirma: “Eu desejo que te dirijas para a Grande Felicidade e não para a Grande Gamelada. (...) se entrares na vida pública com o desejo humilde de servir a comunidade, colaborar no espetáculo para o bem da maioria, é coisa muito diferente.”

Já no Escutismo para Rapazes, palestra de bivaque nº 26, dedicada ao civismo, afirma (p.320): “Depois, quando fordes crescidos, tereis o direito de voto e a vossa parte no governo do país.
E muitos de vós sentir-se-ão inclinados a pertencer automaticamente ao partido político a que pertencem os seus pais ou amigos. Eu não faria assim, se eu estivesse em vosso lugar. Ouviria aquilo que cada partido tem a dizer. (...). Importa ouvi-los a todos e não se deixar convencer por qualquer deles. E, depois, sede homens, resolvei e decidi por vós próprios qual deles julgais melhor para o país - e não para qualquer pequena questão local - e votai por esse, enquanto ele desempenhar bem a sua missão, ou seja, a bem do país.

Há muita gente que se deixa arrastar por qualquer político novo de novas ideias extremistas. Nunca vos fieis nas ideias de um homem, enquanto estas não tenham sido consideradas de todos os pontos de vista.”

Este é, para a comunidade internacional, para o país, para a Igreja, para o Escutismo e para o seu fundador, o cidadão de ”corpo e alma”, aquele que não constitui um perigo para a democracia como nos alerta B.-P. em A Caminho do Triunfo (p. 167): “O perigo das democracias está no homem que não quer pensar por si nem aprender a pensar bem, como aprende a andar direito.”

O escuteiro nunca será um destes perigos andantes para a democracia, ao canto das sereias, desmobilizador da participação cívica, responderá sendo um cidadão informado, consciente e crítico, um verdadeiro obreiro do futuro, prestando assim homenagem aos que em Abril ousaram sonhar um Portugal livre e democrático.

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