Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Escutismo educa para a Paz

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Escreve quem sabe

2011-10-21 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

“A paz não pode ser garantida unicamente por interesses comerciais, alianças militares, desarmamento geral ou tratados recíprocos, a menos que o espírito de paz esteja presente na mente e na vontade de todos os povos. Isto é uma questão de educação.”

Baden-Powell, O Rasto do Fundador, p.140
(Conferência Internacional de Kandersteg, 1926)

Na sua intuição de educador Baden-Powell tinha ideias muito claras sobre o processo de construção da Paz. Em 1926, no tempo hoje conhecido como entre guerras, quando já se sentia no ar o cheiro de uma nova guerra mundial, o fundador alertou o mundo para a única forma de construir a paz: a educação. Por isso, o Movimento Escutista está marcado por esta ideia central de construção da paz com base na educação.

Uma educação que permita aos jovens crescer autónomos, pensar pela sua cabeça e orientar-se pelos valores da compreensão, da entreajuda, da cooperação e da solidariedade, enfocados pelos valores da justiça, da liberdade e da amizade.

Ao herdarmos este legado do nosso fundador temos que ter consciência, antes de tudo, na nossa condição de educadores. Convém desde já ter presente que o educador não é um sábio - aquele que sabe tudo, que tem respostas para tudo -; bem pelo contrário, é aquele que coloca dúvidas, que ajuda a encontrar e a construir respostas, que tem no seu coração, nas suas atitudes e comportamentos os pequenos sinais que servirão de pista para se construir algumas respostas.

B-P criou um sistema de valores que cada jovem vai vivendo, segundo a sua vontade, suas aspirações ou os seus desejos, mas sempre numa harmonia indissociável dos outros jovens e adultos que o acompanham. É esta capacidade de traçar o seu próprio caminho, sem ignorar o caminho de todos os outros jovens, mas fazendo com que este permita aos outros o crescimento e a afirmação de cada um deles, num espírito de um só corpo - como nos recordava S. Paulo “como num só corpo, temos muitos membros” (Rom 12, 4).

Esta forma de ser e de estar vai-se apreendendo e interiorizando, graças às pequenas vivências na sede e nas actividades de Patrulha ou de Unidade onde crianças e jovens vão assimilando as atitudes e os comportamentos que materializam a assunção dos valores humanos.

É “respirando” neste ambiente que se vai desenvolvendo uma personalidade marcada pelos valores da Paz. Para que este clima invada a vida dos educandos que nos são confiados é imprescindível que, também nós, os educadores, sejamos os primeiros a dar testemunho. Aqui a pedagogia da mi-mese joga um papel importante, pois sem ela não há referente, não há exemplo, temos que ser capazes de assumir a afirmação de S. Paulo “Sede meus imitadores, como também eu de Cristo” (Cor 11, 1).

O pequeno grupo (o Bando, a Patrulha, a Equipa ou a Tribo) é o espaço preferencial e por excelência das aprendizagens da partilha (do dar e do receber) - cada um leva os seus dons (pessoais e materiais) que coloca ao dispor dos outros para que todos se sintam irmãos, sem ter a preocupação do «quem mais deu» ou do «quem mais recebeu», mas sim que todos comunguem do bem comum que todos construíram.

Este conceito «de ter» está indelevelmente marcado pelo pensamento de Madre Teresa de Calcutá “só se possui verdadeiramente aquilo que se dá”. Só este espírito permite o desprendimento do possuir mais e mais, tão caraterístico dos nossos dias, e pode conduzir as novas gerações a assumir que não podemos falar de Paz: a quem morre de fome, às mães que vêem os seus filhos morrer nos braços por falta dos cuidados de saúde mais básicos ou às famílias cujos filhos são levados para ser ágeis e baratos trabalhadores, pequenos guerreiros ou para satisfazer os desejos mais perversos de alguns.

O sentimento de partilha leva as crianças e os jovens a construir um conceito de justiça verdadeiramente humano e participado onde o bem comum assume o predomínio sobre a forma e a astúcia. A Patrulha é o espaço onde se tomam as primeiras decisões coletivas, onde o saber é colocado ao serviço de todos, onde a partilha das ideias é feita com sinceridade, com verdade e com energia.

Onde o debate dá espaço ao aparecimento de sinergias capazes de alterar a lógica matemática onde a soma de dois mais dois é quase sempre superior a quatro. É nesta preparação e assunção das decisões que cada um assume as suas funções e as suas responsabilidades. Onde cada um toma consciência que é parte de um todo.
É neste espaço de autonomia, de responsabilidade e de cooperação que o jovem Escuta é chamado a exercer o seu direito de cidadania e a tornar-se um construtor de Paz.

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